Uma história de caçador

Contam que um viajante russo perdeu-se nas florestas da Siberia no estremo oriente da região, nos princípios do século XX Depois de alguns dias foi salvo por um caçador da região que o levou para um abrigo perdido na floresta. Era uma simples choupana de madeira, porém serviu pra abrigar o viajante até pudesse seguir viagem. No dia da partida, o caçador procedeu a uma limpeza rigorosa no abrigo, cortou lenha, limpou o local do fogo e teve o cuidado de deixar uma porção de sal, azeite e pólvora num canto seco. Só depois desta faina toda é que se dispôs a prosseguir viagem. O viajante russo, espantando com toda àquela atividade que deixara o abrigo melhor do que fora encontrado, indagou do caçador do porque de tudo aquilo. Este apenas disse: “Alguém irá precisar do abrigo no futuro. Talvez chegue cansado, e ficará feliz em encontrar tudo pronto para descansar.

Esta história dá o que pensar. Quantos de nós, ao usufruirmos de lugares bonitos e providencialmente revigorantes em nossa jornada existencial, o fazemos de tal modo que eles fiquem como os encontramos, ou ainda melhor do que os encontramos, para os que venham a usá-los depois?

De um modo geral, o que se vê é o lixo, a sujeira e a destruição que ficam para trás das nossas passagens por aí. Quase sempre agimos sem pensar nos próximos que virão e que também ficariam felizes em encontrá-los tão lindos e limpos como nós os encontramos. Quem viaja em férias pode ver o desrespeito com que são tratados praias, campings, beiras de rio, reservas florestais, cânions, e outros lugares bonitos. Todos viram uma imundície de dar nojo. Agimos como se nunca mais ninguém viesse ali no futuro.

Aliás o planeta todo tem sido tratado desta maneira. Ele, que é o grande abrigo de todos nós viajantes cansados, tem sido tratado com desconsideração e ignorância. Poucas pessoas têm seguido o exemplo do modesto caçador mongol que em seu gesto simples, revelou uma consciência e um amor ao próximo fantásticos. A maioria continua cuspindo no prato em que comeu, jogando o lixo no chão que irá pisar. A continuar assim, não teremos mais aonde ir descansar o corpo e o espírito cansados e confusos dos descaminhos da vida.

Temos que começar a pensar e agir como o Velho caçador Mongol. Ele que se chamava Dersú Usala, é um exemplo dos signos de renovação que também podemos cultivar no nosso dia a dia.

Arno Kayser
Agrônomo, Ecologista e Escritor

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