Quem Jogou as laranjas no Chão?

Numa escola de Educação Infantil onde o espaço para as crianças viverem a natureza é bastante reduzido, as professoras buscaram e encontraram uma forma de amenizar essa situação: fizeram uma parceria com a igreja vizinha que dispõe de um lindo gramado rodeado de laranjeiras e bergamoteiras. Passaram então a frequentar este espaço para fazer piqueniques, para ler e ouvir histórias e, como é uma escola de crianças ainda bem pequenas, principalmente, para brincar ao ar livre vivendo e sendo natureza.
O início das visitas coincidiu com o período final do ciclo das frutas e, como elas não haviam sido colhidas, haviam muitas laranjas caídas pelo chão, caídas de madura, como dizemos popularmente. As crianças ficaram inconformadas, quase que revoltadas, questionando:
– Por que as laranjas estão no chão? Quem fez isso?
Para nós adultos, especialmente aqueles que tiveram uma infância marcada pelas brincadeiras de subir em árvore e comer a fruta “do pé”, a resposta é óbvia:
-As laranjas caíram porque estão maduras demais.
Entretanto, para além da ingenuidade engraçada, se olharmos essa cena com um pouco mais de profundidade percebemos a denúncia das próprias crianças sobre quanto perderam: perderam a oportunidade de conhecer o doce/azedo das laranjas, perderam a oportunidade de arranhar a pele ao colhê-las, perderam a oportunidade de sentir o doce perfume das flores se tivessem chegado mais cedo. Perderam de acompanhar as flores se transformando em fruto, perderam de ver os frutos crescendo, amadurecendo; perderam de conhecer, em seu paladar, o melhor momento de colher as laranjas, perderam a oportunidade de partilhar com os familiares e amigos o excesso da colheita. Perderam o direito à interação com a natureza, empobrecendo a experiência de ser humano na relação e mistura com o mundo, nesse belo processo de construção de si mesmo.
Outra professora levou as crianças para visitarem uma laranjeiras com as frutas ainda verdes e as crianças não conseguiam perceber onde estavam as laranjas porque as laranjas vindas do mercado tem outra cor.

Precisamos, com urgência, devolver às crianças o contato com os ciclos essenciais da vida percebidos através das laranjeiras, das goiabeiras, dos ingazeiros, das pequenas hortas e jardins vividos cotidianamente, porque visitas pontuais a esses espaços ajudam, mas não dão conta de mostrar um ciclo.
Precisamos, com urgência, reaproximar as crianças de sua natureza criando espaços para o livre brincar. Brincar de comidinhas, brincar de buscar ingredientes e temperos na horta, brincar de subir em árvores porque foi assim que aprendemos natureza e não em livros ou árvores com laranjas construídas de sucata.
Precisamos, com urgência, de casas, escolas e cidades que cultivem e cuidem da vida através de quintais floridos, hortas e pomares alimentando as crianças (e adultos!) de aprendizagens que dialoguem com a saúde, com a liberdade, com a alegria e com o toda forma de cuidado. Afinal, como, diz Leonardo Boff, sem cuidado deixamos de ser humanos.

Rita Jaqueline Morais
Professora aparelhada para gostar de crianças e laranjeiras

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