Quem era Henrique Luiz Roessler?

Em 1974, Ano do Sesquicentenário da Imigração Alemã, foi descerrada em praça pública de São Leopoldo uma placa de bronze em memória a Roessler, o “símbolo do amor e da luta pela Natureza em nosso Estado”.
Em 1977 o Governo do Estado lançou a revista “Roessleria”, órgão oficial de divulgação do Instituto de Pesquisa de Recursos Naturais Renováveis da Secretaria da Agricultura.
Em 1978 surgiu, em Novo Hamburgo, o “Movimento Roessler – para a proteção ambiental”.
Escolas disseminadas por todo o Estado lembram o nome de Roessler através de variadas iniciativas. Assim, a Fundação Evangélica de Novo Hamburgo inaugurou no interior de Ivoti a “Área Rural Henrique Luiz Roessler”, destinada a oferecer a oportunidade de contato com a natureza a alunos, pais e à comunidade em geral.
Quem era esse personagem, falecido em 1963, e que cada vez mais está sendo recordado?
Procuremos evocá-lo lembrando contatos pessoais, folheando seus escritos e consultando os arquivos da Companhia Jornalística Caldas Junior:

Henrique Luiz Roessler nasceu em Porto Alegre, 1896. Logo após, a família passou a residir em São Leopoldo. Ali cresceu e frequentou o Colégio Conceição, berço da Unisinos. Exerceu as profissões de desenhista, na seção de obras da Prefeitura Municipal de São Leopoldo, de contador e de construtor de barcos. Em 1914 casou-se com dª Thekla Hasse. O casal teve dois filhos, Milton e Lilian.
Em 1939 ofereceu gratuitamente os seus serviços ao governo federal a fim de combater o desperdício e o aniquilamento dos nossos recursos naturais. A proposta foi aceita. Também foi nomeado, na mesma ocasião, capataz da Capitania dos Portos – também sem vencimentos. Somente anos mais tarde passou a perceber remuneração nesse cargo. Posteriormente mereceu promoção a Delegado Regional Florestal com a incumbência de organizar e desenvolver o Serviço Florestal e, como colaborador da Divisão do Serviço de Caça e Pesca, cuidar da fiscalização desses esportes no território gaúcho.
Auxiliado pelo filho Milton, o Delegado Regional encontrou amigos idealistas no interior do Estado, os quais, por sua indicação, foram nomeados guardas florestais. Mais de 400 colaboradores anônimos trabalharam, em certa época, sob sua orientação. O serviço demandava muito espírito de sacrifício e grande coragem. Em suas viagens de fiscalização, Roessler sofreu dezenas de agressões e correu riscos de vida, principalmente ao apreender espingardas de caçadores faltosos.
Em 1952, no decurso de uma diligência fiscalizadora realizada no município de Bento Gonçalves, o jipe esbarrou contra a guarnição duma ponte e precipitou-se num abismo de oito metros. Por milagre o Delegado Regional escapou da morte, porém sofreu o esmagamento do pé direito, que teve de ser amputado. Mesmo aleijado, Henrique Roessler não esmoreceu na luta contra os destruidores da natureza. O período de readaptação foi aproveitado na persistente campanha de propaganda e orientação da juventude escolar e do elemento rural. Semanalmente o Suplemento Rural do Correio do Povo publicava um enseio por ele redigido.
Em 1º de janeiro de 1955 fundou a União Protetora da Natureza(UPN). Essa entidade, precursora da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), propôs-se a lançar campanhas educativas e a gestionar junto às autoridades em defesa da preservação da natureza. Editou inúmeros folhetos com mensagens ou conselhos práticos. Para exemplificar, citam-se alguns títulos: “Defendamos a Natureza!” – “Juramento de proteção à Natureza” – “Responsáveis são os pais!” – “Fundas – Não!” – “Mais pássaros – melhores colheitas” – “Porque prender e matar inocentes?” – “Que espécie de caçador é você?” – “Guia do caçador” – “Conheça e respeite as leis da caça e pesca” – “Orientação aos pescadores” – “A ruína da pesca” – “O reflorestamento em ação” – “A imprevidência dos homens inteligentes”.

Ainda recordamos o Henrique Roessler daquela época: alto, grisalho, caminhando com alguma dificuldade, de fala mansa – porém decidida e corajosa. Naquele tempo, “ecologia” ainda era um termo reservado aos cientistas; a palavra “poluição”, um vocábulo escondido nos dicionários, a tese do “equilíbrio biológico”, encarada com sorriso cético. Entretanto, Roessler – que não era cientista, que não chegou a ampliar sua instrução escolar – com intuição e amor chegou a vislumbrar aquilo que mais tarde seria apregoado pelos estudiosos em ecologia. Hostilizado, escarnecido, ridicularizado, perseguido por aqueles a quem seu incômodo idealismo prejudicava os interesses imediatistas, não esmorecia.
Sua esperança era a juventude. À gurizada ele se apresentava como paternal mentor. Ainda hoje, São Leopoldo recorda as solenes queimas das fundas (estilingues) que Roessler promovia periodicamente em praça pública, com a entusiástica adesão da petizada.
Denunciava implacavelmente a “hipocrisia do Dia da Árvore”. Escreve ele:
“Reacende-se o fogo de palha das campanhas de consciência florestal e encena-se a farsa do “reflorestamento simbólico” com o plantio de UMA mudinha, sob cantos de hinos, recitação de poesias, discursos de longo fôlego, músicas, foguetes e palmas. Para documentar a farolagem nos jornais, batem-se fotografias – e está cumprido o dever patriótico! Três dias depois está tudo esquecido e as arvorezinhas, mortas porque não foram regadas. Cai o silêncio da morte sobre o assunto por mais um ano. – Mas lá fora, na mata, continuam os vilões, sem interrupção, o arrasamento sem lei nem medida nem controle, enchendo os bolsos com o lucro de um bem de interesse comum de todos os brasileiros.” – “O Dia da Árvore é um Dia de Luto para os amantes da natureza, em que se chora a devastação total, a perda de nossa maior riqueza nativa, indispensável ao progresso da Nação.” (Suplemento Rural do Correio do Povo – SRCP)
E lá vai um conselho que revela a dimensão de seu ideal:
“Não faça como outros que só querem colher onde não plantaram: plante para o futuro, que lhe agradecerão. Mesmo se souber que você vai morrer amanhã, ainda plante hoje uma árvore!” (Suplemento Rural do Correio do Povo)
Roessler procura sensibilizar a população pela sorte dos animais silvestres, aos quais o homem move cruel e irracional perseguição. No trecho transcrito, sentimos uma santa cólera:
“O homem, esse grande devastador da natureza, não somente destrói as matas. Onde se movimenta um animal selvagem, já está um caçador na espreita para acuá-lo e roubar-lhe a vida – pois acham nisto um grande prazer, um magnífico divertimento, ferindo e matando as pobres criaturas, levando a morte e o sofrimento para dentro de nossa linda natureza. – Nem sequer são respeitadas as espécies protegidas por lei, como os utilíssimos passarinhos, cantores e comedores de insetos, que são o encanto das matas e dos campos…” (“Defendamos a Natureza”- 1957)
Ao manifestar-se em defesa dos pássaros engaiolados, sentimos a ternura de Roessler para com os fracos e indefesos:
“Atrás das grades falta tudo que a natureza oferece, a começar pela liberdade, que é o maior bem da vida. Falta espaço para usar as asinhas que Deus lhes deu; as árvores para saltar de ramo em ramo; a companhia de seus semelhantes; os alimentos preferidos, principalmente os insetos; a água cristalina das fontes; o ar puro das matas; a possibilidade de escolher seus pares, construir seus ninhos e criar filhotes. – Todo o amor de seus donos não os recompensa pela liberdade perdida. Soltos, são muito mais felizes.” (SRCP, 1957 – “Condenados Inocentes”)
Um APELO endereçado em 1959 ao Presidente Juscelino Kubitschek, documento de significativo interesse histórico, conclui com a seguinte afirmação, reveladora da impaciência que está tomando conta de quem estava lutando durante a vida inteira pela conscientização dos responsáveis pelo destino do País:
“Caso V.Excia. não conseguir pôr em prática estas medidas de rigor no curto prazo de governo que ainda lhe resta, estará tudo perdido, apesar de nosso aparente progresso industrial, e poderemos nos preparar para enfrentar a miséria e a fome e morrer na escravidão”. – E mais adiante: “Queira V. Excia. desculpar a rudeza com que abordamos o assunto…”
Parece que Roessler também começou a pressentir, ele mesmo, o “curto prazo” que ainda lhe restava: nos seus últimos anos percebe-se um crescente pessimismo – um desespero quase – por sentir que seu empenho não surtia os efeitos que a gravidade da situação exigia. Mesmo assim não desistiu!

Henrique Luiz Roessler faleceu no dia 13 de novembro de 1963, com apenas 67 anos de idade.
A notícia foi divulgada no Suplemento Rural do Correio do Povo através do seguinte editorial:
“Está de luto o Serviço de Caça e Pesca, a classe dos caçadores conscienciosos, os profissionais da pesca do Rio Grande do Sul e o nosso Suplemento Rural, pelo desaparecimento repentino de Henrique Luiz Roessler, o nosso velho cronista, fundador da União Protetora da Natureza.”
“Podemos afirmar que foi o maior guarda florestal de todo o Brasil. Seu trabalho fecundo aqui está para propugnar, também no futuro (…) o respeito à Natureza, a preservação das espécies, o reflorestamento.”
“Sua atividade em prol do pescador profissional foi relevante, embora tivessem os poderes públicos quase sempre negado sua indispensável colaboração à melhoria das condições de vida de uma classe que merecia mais proteção. (…) Embora temido pelos infratores aos quais não dava tréguas, Roessler granjeou o respeito e a coadjuvação dos plantadores de arroz que visitava constantemente para impor excepcionais cuidados na instalação das bombas que sugam o peixe pequeno para os condutos dos arrozais. Sua incansável atividade combatendo renitentes passarinheiros (…) onde era temido como fiscal incorruptível e rigoroso, lhe valeria traiçoeira emboscada da qual saiu duramente atingido com a capotagem do jipe.”
“Perde o Rio Grande do Sul um homem de fibra, bem intencionado, grande batalhador e honesto em todos os seus propósitos, e o Suplemento Rural do Correio do Povo um colaborador dos mais conceituados.” (SRCP – 15.11.1963)
E na mesma ocasião Cylon Rosa, ex-governador do Estado, escreveu:
“Morreu Henrique Luiz Roessler. E, com seu prematuro desaparecimento, perdem o Rio Grande e o Brasil um servidor de invulgar devotamento. (…) Se dez porcento dos homens que exercem funções públicas no Brasil, obedecessem a seu padrão moral e cívico, bem diferente seria a situação de nossa Pátria. (…) – Em verdade, Roessler era um cidadão excepcional. Jamais objetivos de ordem material lhe inspiraram as atividades retilíneas. Agia tão somente em obediência a seus impulsos humanitários, tangido pelo condão de um idealismo superior.”
“Panteísta quase místico, a Natureza era, para ele, a imensa catedral onde exercia seu sublime apostolado. A proteção aos seres indefesos, especialmente árvores e pássaros, era sua preocupação de todos os instantes. Se as árvores e os pássaros pudessem pensar e sentir, haveriam de, por certo, cultivar esse sentimento que o homem raramente possui: a gratidão. E lhe prestariam, então, quando seu corpo baixou às entranhas da terra amiga, a homenagem merecida por seu incansável e denodado defensor. Uma chuva de pétalas adejantes se derramaria sobre a sua tumba e uma revoada fantástica de asas multicores encheria o espaço. E como fundo musical dessa apoteose elegíaca, a sinfonia de gorjeios e trinados da passarada em coro, a entoar o último adeus ao grande benfeitor.” (SRCP – 6.12. 1963)
A herança que Henrique Luiz Roessler nos legou pode ser sintetizada pelo Juramento de Proteção à Natureza, ainda hoje tão válido como na época em que ele próprio o formulou:
“Juro solenemente como filho do Brasil, orgulhoso de suas belezas e riquezas naturais, zelar pelas suas florestas, sítios e campos, protegendo-os contra fogo e devastação, fomentar o reflorestamento, conservar a fertilidade do solo, a pureza das águas e a perenidade das fontes e a impedir o extermínio dos animais silvestres, aves e peixes.”

Artigo originalmente publicado em 1978 – 15º aniversário da morte de HLR.

Prof. Kurt G.H. Schmeling

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