O professor de Ecologia

Lá pelos anos de 1940, um jovem gaúcho tinha um problema para resolver. Corria a Semana da Pátria e o seu professor lhe determinara fazer uma redação sobre o assunto. Ele estava em crise de criatividade e ia matutando sobre o que escreveria. Voltava para casa enquanto pensava no trabalho que tinha que apresentar.

Foi quando passou em frente de uma loja e o que viu era tão diferente que teve de parar. Numa pequena vitrine estavam expostas imagens e desenhos de plantas e bichos nativos. No centro, uma frase alusiva à Semana da Pátria. O expositor conclamava os passantes a declamar seu amor à Pátria defendendo, antes de tudo, a rica natureza do país: o maior patrimônio de todos os brasileiros.

Aquela vitrine o impressionou de tal modo que resolveu fazer seu tema dentro do espírito daquela idéia. O resultado foi tão bom que teve a melhor nota da turma e acabou lendo seu texto, para todo o colégio, numa cerimônia cívica. Quando terminou de ler, alguém comentou que o jovem tinha, por certo, passado na frente da Loja do Roessler.

Foi assim que esse jovem teve seu primeiro contato com a defesa da natureza. Mais tarde juntou-se ao grupo de trabalho de Henrique Roessler (ambientalista gaúcho) como colaborador ativo. Anos depois, voltou na mesma loja. Era diretor da Fundação Evangélica e vinha pedir ajuda para um desafio que tinha proposto aos alunos. Seu propósito era recuperar a floresta ao fundo da escola. Na época este espaço era um campo agrícola abandonado.

O ecologista o conduziu ao monumento do colono e, cuidadosamente, arrancou várias mudas de ipê amarelo que vicejavam na praça; plantas que seriam arrancadas pela limpeza pública. Sugeriu começar por aquelas árvores e ainda se dispôs a fazer uma palestra de estímulo aos alunos.

O herói é o Professor Schmeling, grande formador de vários ecologistas da cidade de Novo Hamburgo. Tenho orgulho de dizer que fui seu aluno de Ecologia no Ensino Médio, ocasião em que tomei contato com a jovem ciência da Ecologia. Além de mim, vários jovens tomaram as mesmas lições. Boa parte dos fundadores do Movimento Roessler foram seus alunos, tanto que a entidade nasceu na escola.

Por muitos anos, ele prosseguiu estimulando o trabalho da ONG, sempre de um jeito discreto que ajudou a consolidar o nome do Movimento Roessler na cidade. Escrevo estas linhas para registrar que seu trabalho de professor frutificou em várias conquistas ecológicas na nossa terra. Esse fato nem sempre é reconhecido. Por isso, rendo esta pequena homenagem a este grande professor de Ecologia.

Por Arno Kayser, agrônomo, ecologista e escritor.
Artigo publicado na edição nº 380, jornal Mundo Jovem, setembro de 2007, página 15.