O grande mestre

Lutz“A verdadeira, a mais profunda ESPIRITUALIDADE consiste em sentir-nos parte integrante deste
maravilhoso e misterioso processo que caracteriza Gaia nosso planeta vivo: a fantástica sinfonia da evolução orgânica que nos deu origem junto com milhões de outras espécies.
É sentir-nos responsáveis pela sua continuação e desdobramento”.
J.A. Lutzenberger

José Lutzenberger, um dos ambientalistas de vanguarda no Brasil, fundador da primeira ONG do país dedicada à natureza, a AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), nos deixou no dia 14 de maio, em Porto Alegre. O ecologista gaúcho recebeu, ao longo de sua vida, 85 condecorações, distinções, títulos honoríficos e comendas de estados brasileiros, de entidades civis, governos da América Latina e da Europa tamanha a importância do trabalho que desenvolveu. O sentimento de apreensão devido à perda advém da imensa responsabilidade das pessoas que ficam e que não mais poderão contar com a experiência e a militância gratuita de Lutz, que sempre foi uma grande fonte jornalística.

Segundo a própria Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, “nas décadas de 70 e 80, não havia como fazer um enfrentamento jornalístico de certas questões sem se ouvir o Lutzenberger”. O seu espírito empreendedor, engajado, razão de ser um grande incentivador da juventude para que procurasse um embasamento científico além da sua postura pró-ativa em relação às questões ambientais foram alguns dos motivos de ter ganho, em 1988, em Estocolmo, na Suécia, o The Right Livelihood Award, o prêmio Nobel Alternativo ma área de ecologia.

Histórico

Formado em 1950 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, durante dois anos fez cursos complementares na Louisiana State University, aprofundando-se em agroquímica. Voltou ao Brasil e trabalhou durante sete anos em empresas do setor de adubos, no Rio Grande do Sul. Em 1957, foi convidado para trabalhar na Basf, na Alemanha. Partiu sem intenção de voltar e ficou 13 anos fora do país, como executivo da empresa: na Alemanha, durante dois anos; na Venezuela, entre 59 e 66; e no Marrocos, até 1970.

O processo que o levou a recusar uma nova promoção na empresa, para atuar em todo o Mediterrâneo, e trocar uma confortável posição de executivo de multinacional pelas incertezas do retorno ao Brasil, foi lento. É verdade que havia constatado, já no início de suas atividades na Basf, que o horizonte científico reservado aos executivos era estreito e insatisfatório. Em depoimento ao jornalista João Batista Santafé Aguiar (32), Lutzenberger revela seu desconforto diante do conselho de um de seus superiores, logo que chegou à Alemanha: ”Vejo que você se interessa por antropologia, filosofia, se ocupa com matemática, biologia, história, história das religiões; mas precisa ter consciência de que és homem de adubo! Tem que se interessar por adubo!”. Foi como “homem de adubo” que trabalhou na Venezuela durante quase sete anos. Além de ter a oportunidade de conhecer muito bem o país e seus vizinhos, tinha tempo para estudar. Na Venezuela, conheceu Leon Croizat, que considera até hoje uma das maiores autoridades mundiais em biogeografia, com quem pôde aprofundar seus conhecimentos na área. Supria a limitação do horizonte profissional com outras atividades.

Conquistas

Em que isso tudo resultou? As conquistas são inúmeras, como a ação que ganhou na justiça contra a empresa norueguesa Borregaard, que resultou na venda da companhia para o grupo Klabin. Essa empresa, hoje, trabalha com um bem sucedido programa de reciclagem de resíduos industriais. Atuação na elaboração da lei pioneira 7747/83, sobre defensivos agrícolas. Sua luta travada contra os agrotóxicos e a investigação do acidente ecológico de Hermenegildo (conhecido também por maré vermelha) são outras bandeiras que o gaúcho levantou energicamente.

Fundou também a Fundação Gaia, com o objetivo principal de ter um centro de estudos humanistas que explora a perspectiva de conservação da vida no planeta. Além de disseminar informações sobre os perigos da globalização e suas tendências atuais, que representam um perigo para a humanidade no ponto de vista ecológico e social. A implantação do Parque Guarita, em Torres, a criação do Parque de Itapuã e dezenas de obras mais podem ser atribuídas a ele.

Segundo o ministro do Meio Ambiente, José Carlos Carvalho, disse que os brasileiros deveriam “seguir o seu exemplo, fazendo de nosso dia-a-dia uma busca permanente de novas ações capazes de assegurar respeito à fauna e flora”. Mais do que isso, segundo a visão gaiana e holística de Lutz, acredita-se que seria preciso assumir uma nova posição em relação ao modelo de desenvolvimento insustentável do nosso sistema, assim como uma revisão dos princípios que norteiam a nossa postura ética.

Em 1990, foi escolhido pelo então presidente Collor de Melo para comandar a Secretaria de Meio Ambiente. A partir de então passou a ter atritos com grupos ambientalistas do Brasil e do exterior ao levantar suspeita sobre o desvio de recursos destinados por ONGs estrangeiras ao combate ao desmatamento no Brasil. Foi paradoxalmente demitido em março de 92, três meses antes da realização do maior evento da história da ONU sobre ecologia e biodiversidade, a Rio-92.

Manifesto Ecológico Brasileiro: Fim do Futuro?

Nós humanos somos um aspecto parcial e momentâneo de um incrivelmente longo e paciente processo, da fantástica história evolutiva do Caudal da Vida que caracteriza nosso Planeta e o distingue dos demais planetas deste sistema solar.
A evolução orgânica é um processo sinfônico. As espécies, todas as espécies, e o Homem não é exceção, evoluíram e estão destinadas a continuar evoluindo conjuntamente e de maneira orquestrada. Nenhuma espécie tem sentido por si só, isoladamente. Todas as espécies, dominantes ou humildes, espetaculares ou apenas visíveis, quer nos sejam simpáticas ou as consideremos desprezíveis, quer se nos afigurem como úteis ou mesmo nocivas, todas são peças de uma grande unidade funcional. A Natureza não é um aglomerado arbitrário de fatos isolados, arbitrariamente alteráveis ou dispensáveis. Tudo está relacionado com tudo. Assim como numa sinfonia os instrumentos individuais só têm sentido como partes do todo e a grandiosidade do todo é função do perfeito e disciplinado comportamento de cada uma das partes, os seres vivos em seu fundo abiótico só podem ser compreendidos como partes integrantes da maravilhosa sinfonia da evolução orgânica, onde cada instrumento, por pequeno, fraco ou insignificante que possa parecer, é essencial e indispensável.
Num esquema de infinitas variações, ajustes e especialidades, plantas, animais, fungos, bactérias e vírus, em interação recíproca e com o fundo mineral, complementam-se mútua e multilateralmente. Biosfera, Atmosfera, Hidrosfera e Litosfera encontram-se integradas num grande sistema homeostático, isto é, um sistema equilibrado, autoregulado — a Ecosfera.
Em seu entrosamento multicomplementar, os seres vivos em conjunto, ou seja, a Biosfera, constituem-se no motor da Ecosfera. Este motor, movido pela energia solar através da fotossíntese dos vegetais, aciona os ciclos bio-geo-químicos, que são o sistema de suporte da vida da Nave Espacial Terra. O Caudal da Vida está de tal maneira estruturado que ele constitui seu próprio sistema de suporte de vida. A sobrevivência de cada uma das partes depende do funcionamento harmônico da Ecosfera como um todo. Esta, por sua vez, só subsiste pelo entrosamento perfeito de todas as suas partes. A Vida começou na Terra há mais de três bilhões de anos atrás e conseguiu manter-se e aperfeiçoar-se continuamente porque, em seu todo, ela sempre funcionou como sistema integrado homeostático.
Como toda nave, a Nave Espacial Terra é finita. Seus recursos são limitados. Os ciclos bio-geo-químicos, entre os quais se destacam o ciclo do oxigênio, do gás carbônico e do nitrogênio, assim como o grande ciclo da água, veículos estes e de uma série de outros, são o fluxo, em ciclo fechado dos recursos materiais da Vida, de tal maneira que tudo é sempre reaproveitado – os detritos e os cadáveres de uns são a matéria-prima dos outros. Na Natureza intata não há poluição porque nada se perde, tudo circula perpetuamente.

Resumindo: os aspectos mais importantes a ter em mente para a compreensão da problemática ambiental são:

1. 1) a Ecosfera é uma unidade funcional em que cada peça tem sua função específica, complementar de todas as demais. As espécies são no contexto da Ecosfera o que são os órgãos no organismo;

2. 2) temos, por isso, interesse na preservação et todas as espécies, sem exceção;

3. 3) a base da sobrevivência do sistema é o comportamento disciplinado em equilíbrio auto regulado – a homeostase;

4. 4) a reciclagem perfeita e perpétua de todos os materiais de que se serve a vida permite a continuação indefinida, através das eras geológicas, com os recursos limitados do Planeta.
A Ecologia, como ciência da Sinfonia da Vida é a ciência da sobrevivência.
Longe de ser uma especialização a mais, entre outras tantas, a Ecologia é uma generalização, ela é a visão global das coisas, é a visão sinfônica do Mundo, a visão do Universo como esquema racional integrado.

* Do livro: “Manifesto Ecológico Brasileiro: Fim do Futuro?”, Ed. Movimento, 4ª ed., 1986, RS