Uma história de paixão

“Em 1939, no auge da navegação fluvial no Rio Grande do Sul, um desconhecido funcionário da Capitania dos Portos, setor do Rio dos Sinos, São Leopoldo, Henrique Luz Roessler, começou a se interessar pela defesa da Natureza, de forma pioneira no Brasil, intervindo na caça, pesca, desmatamento, poluição e fazendo Educação Ambiental através de boletins. Roessler usava as possibilidades dentro da sua repartição e, mais tarde, pedia às empresas comerciais que pagassem os impressos de propaganda. Em 1955, fundou a União Protetora da Natureza – UPN. Em 1957 começou a escrever crônicas semanais, publicadas no jornal de maior circulação do estado, o Correio do Povo. Milhares de pessoas o conheceram e admiraram.”

Assim começa A História do Ambientalismo (Ed. Sagra Luzzato, 126 pág.), de Augusto Carneiro, advogado, livreiro e militante com mais de 40 anos de serviços apaixonadamente prestados à Ecologia. Carneiro procura traçar um panorama nada consensual da história da defesa da natureza. Os ecologistas e simpatizantes que foram à Feira do Livro de Porto Alegre na noite do dia 11 de novembro, prestigiar a sessão de autógrafos, viu um escritor octogenário com uma vivacidade rara em pessoas com frações de sua idade.

Esta vivacidade está presente em cada frase do seu livro. Mordaz, Carneiro ignora qualquer tipo de diplomacia para atacar aqueles que considera como inimigos do movimento ecológico. Proporcional à ira que dispensa a seus desafetos é o carinho com que fala a respeito dos verdadeiros defensores da natureza, sobretudo seu amigo e companheiro José Lutzenberger e o nosso Henrique Roessler, como mostra o trecho acima. Carneiro prova que Roessler foi o pioneiro da luta ecológica no Brasil e solta o verbo contra os teóricos do centro do país que ignoram sua vanguarda e a de Lutz.

Com linguagem clara, direta e concisa, a metralhadora giratória de Carneiro não poupa aqueles que, por interesse ou despreparo, ameaçaram ou ameaçam a grande luta em defesa da natureza, sejam eles da direita ou da esquerda. A História do Ambientalismo, longe de pretender-se obra definitiva sobre o tema, traz as memórias de quem testemunhou e participou do movimento ecológico desde seu surgimento até os dias atuais. Carneiro lança mão de uma infinidade de livros, publicações e declarações para provar todas as polêmicas levantadas e que, segundo o próprio autor, “vão desagradar muita gente”.

Como é bom ler e ouvir histórias contadas por quem é apaixonado pelo tema e dedicou sua vida a ele. Quem ainda não teve oportunidade e quiser conhecer melhor a fascinante verve de Augusto Carneiro, pode trocar experiências com esta cativante figura na Feira da Coolméia, nas manhãs de sábado, no Parque Redenção em Porto Alegre, ou em outras feiras ecológicas por aí. Para despertar o interesse do leitor (se ainda for preciso), ficam as palavras do próprio Carneiro, contando sobre a importância do nosso Roessler na sua “conversão” ao ecologismo:

“Como ex-comunista profissional que se retirou do partido quando da mais importante cisão em todos os Partidos Comunistas do mundo, contra o stalinismo, em fins de 1956 (Guerra da Hungria), passei a se leitor constante de Roessler e fui “ecologizado” por ele. (…) E eu sendo pobre, estudava direito e trabalhava; estava sempre adiando meu encontro com o grande naturalista e a morte repentina deste me impediu de conhecê-lo pessoalmente. A sua entidade, por falta de alguns incentivos, morreu com ele. Viajei a São Leopoldo pouco tempo depois, mas antes da inauguração da ditadura do Brasil, e disse ao filho de Roessler que desejava reviver a UPN.

* Jornalista Wagner Machado