Pedro – o Cientista (Reflexões)

Seguindo a proposta de falar da beleza da relação criança-natureza, bem como da alegria e do encantamento que ela produz, trouxe, em momento anterior, a mini história de Pedro (Clique aqui para ler), um menino, na época do ocorrido, com 3 anos de idade, lá da EMEI João de Barro, no bairro Rondônia/Novo Hamburgo, onde sou professora do Projeto Criança e Natureza. Gostaria de destacar, resumidamente, que a “mini história” é uma forma de comunicação das aprendizagens realizadas pelas crianças para a comunidade escolar e que a versão publicada aqui é exatamente a mesma apresentada na escola. Justifico esse fato, especialmente, porque ao trazê-la para o Movimento Roessler, fiquei tentada em substituir o título para “Pedro – o ambientalista”, ajustando o título ao público leitor e a uma reflexão inicial que trago hoje, a da constituição do sujeito ecológico. No entanto, são tantas as possibilidades de desdobramento e reflexão dessa cena, que pretendo retornar em novas oportunidades falando de cada uma delas separadamente. Dessa forma, ainda será possível refletir sobre a infância emparedada que temos hoje e o papel da escola, através da organização de tempos, espaços e materiais com o intuito de favorecer o encontro das crianças com a natureza.

Escolhi a experiência protagonizada por Pedro porque nos ajuda a enxergar a necessidade do brincar livre em espaços verdes como base para a construção de uma relação afetiva com a natureza e, por consequência, da constituição do sujeito ecológico.

Pedro tem, na escola, a oportunidade e a liberdade de brincar na natureza. De acordo com Silvino Santin (2001), para existir é preciso brincar; se não brincar, não existe. É fundamental brincar para nascer e existir. A presença do outro é incorporada, é amada, é sentida como prolongamento, como continuidade de uma mesma corporeidade. Assim, acredito que a criança estabelece vínculo com a natureza através da brincadeira. Talvez, existam outras formas, mas, na prática (e mesmo teoricamente), eu desconheço.

Todo ambientalista teve, na construção de si mesmo, muitos momentos “Pedro”, iniciando sua trajetória na infância. Richard Louv, em “A Última Criança na Natureza” cita um estudo das pesquisadoras Nancy Wells e Kristi Lekies, da Universidade de Cornell, que além de estudar a influência da infância na formação de ambientalistas, olharam para uma vasta amostragem de adultos que vivem em zonas urbanas, com idade entre dezoito e noventa anos. Perceberam que a preocupação dos adultos pelo meio ambiente e o comportamento relacionado a ele deriva diretamente da participação nessas atividades na natureza selvagem, como brincar com liberdade no mato, fazer caminhadas, pescar e caçar antes dos onze anos. O estudo também sugeriu que o brincar livre na natureza é muito mais eficiente do que atividades obrigatórias organizadas por adultos.

José Lutzemberger, que dispensa apresentações, passou a infância embrenhado nos matos, brincando com gatos, cachorros, aranhas e inclusive cruzeiras! No livro Sinfonia Inacabada – a vida de José Lutzemberger, escrita por Lilian Dreger, há a descrição de uma cena em que a mãe obriga Lutz a levar para longe de casa uma ninhada de cruzeiras que ele queria proteger em sua gaveta. Não estou dizendo com isso que precisamos trazer peçonhentos para a brincadeira das crianças, mas sim, que água, árvores, alfaces, couves e lagartas da horta são indispensáveis.

Não tenho a pretensão de tornar Pedro um ambientalista, mas de dar a ele (e a seus colegas de escola) condições de assim se tornarem, se houver o desejo. Quero, apenas, que ele tenha em sua bagagem essa opção entre outras, porque viveu experiências significativas na infância. Quero dar a ele oportunidade de desenvolver uma relação afetiva com a natureza, condição fundamental para que se torne uma pessoa que cuida da mesma. E, para isso, a escola precisa repensar espaços, tempos e materiais para a brincadeira, tema de nossa próxima reflexão.

E, para finalizar, em tempos de final de ano, desejo a todos um Feliz Natal e um 2018 repleto de aventuras na floresta, acampamentos, banho de cachoeira, brincadeiras na areia e investigações “científicas” na horta, de casa ou da escola, garantindo a alegria das crianças e, quiçá, assegurando, lá por 2020… novas gerações de ambientalistas.

 

Rita Jaqueline Morais
Professora do Pedro

 

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