Pedro – O Cientista (Reflexões II)

Depois da necessidade de um intervalo maior, com imensa alegria, retomo as reflexões sobre a beleza e os encantamentos da relação criança-natureza. Volto ao tema buscando, novamente, inspiração na cena de Pedro (clique aqui para ler), relatada em momento anterior.

Gostaria, antes de seguir, propor ao leitor um resgate no baú de suas memórias de infância buscando suas brincadeiras preferidas. Ouso apostar que entre elas estão: jogo de taco, carrinhos de lomba, subir em árvores, esconde-esconde, cabaninha, casinha…. Desta lista, para dar chão às reflexões, elejo a brincadeira de casinha ou melhor de comidinhas, mas o processo se aplica a todas essas outras brincadeiras que guardamos com tanto carinho em nossas memórias. Numa cena criada por mim, a partir de tantas que já me foram relatadas, visualizo várias crianças, de idades diferentes, entre primos e vizinhos, brincando no quintal da casa da avó, enquanto ele prepara uma fornada de pão de milho. As crianças brincam de casinha preparando-se para receber visita: improvisam a mesa com pedaços de tábuas, pedras viram confortáveis cadeiras, bolinhos de chuva são modelados com terra vermelha, decorados com areia e servidos sobre pratinhos de folhas de bananeira e, para dar mais emoção, um delicioso chazinho de poejo é preparado pelas crianças mais velhas que acendem a fogueirinha, colocando sobre ela uma grade e uma lata fazendo as vezes de chaleira. A brincadeira segue por horas sendo inventada e reinventada, enquanto uma dança de cheiros inunda o terreiro: primeiro o da lenha queimando, depois o do pão de milho assando, o cheiro do barro sendo modelado entre as mãos e, por último, o do poejo, colhido na horta e preparado na fogueirinha. Crianças maiores cuidam das menores e crianças menores aprendem com as maiores enquanto a avó vai dando conta de seus afazeres.

O espaço era o amplo quintal da casa da avó com seu arvoredo, sua horta e seu jardim. Os materiais para brincar, que também podemos chamar de brinquedos, eram o barro vermelho, a areia, as folhas, as latas, as pedras, os restos de tábua e tudo mais, que pudesse ser transformado em brincadeira (e tudo podia – até o fogo!) O tempo era muito, durava até a noite chegar, as horas tinham o tempo da experiência e não do relógio. As brincadeiras eram inventadas ou ensinadas e aprendidas com as crianças mais velhas, pois a convivência permitia a mistura de todas as idades.  As crianças brincavam enquanto os adultos cuidavam de suas tarefas e, de vez em quando, espiavam a brincadeira das crianças. Uma infância “pobre” desprovida de brinquedos comprados, tablets, i-pods e até mesmo de televisão. Uma infância rica de espaço, tempo, materiais e liberdade para dar asas à imaginação. A falta dos “comprados” era justamente o solo fértil para a atividade e a criatividade. Isso não significa ser contra as tecnologias, apenas que elas não substituem experiências fundamentais que eram realizadas no quintal da casa da avó.

Mas o que essa cena tem a ver com a mini-história do Pedro? Tem que a cena protagonizada por Pedro só foi possível porque a escola (e seus professores) está oferecendo a ele, a partir de muito estudo, condições necessárias para que ele seja protagonista de suas aprendizagens, sempre em contato direto com a natureza. A escola tem um pátio amplo, com árvores frutíferas, horta e jardim, buscando uma diversidade e aconchego da casa da avó. As crianças permanecem muito tempo neste espaço realizando suas brincadeiras, investigações e descobertas (será que 20 minutos de recreio dariam conta da cena do quintal da avó?).

Até bem pouco tempo atrás, o lugar legítimo de viver a infância era o lado de fora, com todas as suas emoções, descobertas e invenções. A “rua” é que nos permitia conhecer, e por isso mesmo, nos conectar com todas as formas de vida. Mas os tempos mudaram, as mães, as avós e as tias estão no mercado de trabalho, enquanto as crianças, frequentam as escolas de Educação Infantil (algumas chegam a ficar lá por mais de 10 horas diárias!). Assim, o lugar legítimo de viver a infância hoje é a escola. E sobre essa escola, trago uma afirmação que ouvi de Terezinha Fogaça, diretora da Escola Ágora (em Cotia/SP) “uma boa escola precisa oferecer o que a criança não tem”. Hoje as crianças não tem mais o lado de fora para a brincadeira, não tem contato com a natureza e com a “falta” dos industrializados. Uma boa escola precisa oferecer contato com a vida em toda a sua riqueza e diversidade, desemparedando as crianças. Para Lea Tiriba e Cristhiana Profice, pesquisadoras da infância:

A escola precisa fundamentalmente religar os seres humanos e a natureza, sair, desemparedar, proporcionar vivências nos ambientes naturais, aprender com seus seres e processos. É preciso tornar mais verdes todos os ambientes, quebrar a identificação do lugar de aprender com a sala de aula, deslizar do conhecimento exclusivamente racional para a sensibilização, para conhecer com todo o corpo, para o deixar-se afetar na relação de convívio com as demais espécies e seres abióticos. (TIRIBA; PROFICE, 2014).

Conhecer com o corpo todo! A brincadeira na casa da avó ensinava os cheiros, a textura da terra, da madeira e das rochas, a diversidade das plantas, a arte, as relações sociais, a geologia, a biologia, a ecologia… tudo isso na brincadeira. Hoje, se essas experiências não forem oferecidas na escola, muitas crianças não terão mais acesso a elas, reduzindo suas possibilidades de conhecer o mundo e a si mesmas. Richard Louv, jornalista americano, acredita que tornar as escolas mais verdes seja a grande inovação na educação. Eu também acredito nisso!

A boa notícia: escolas de Educação Infantil da rede pública aqui da região estão investindo cada vez mais nesta proposta. Informe-se sobre elas.

Rita Jaqueline Morais
Professora do Pedro

 

Para saber mais:

TIRIBA, L.; PROFICE, C. O Direito Humano à Interação com a Natureza. In SILVA, A.M.M.; TIRIBA, L. (orgs.) Direito ao ambiente como direito à vida: desafios para a educação em direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2014

https://criancaenatureza.org.br/wp-content/uploads/2018/05/Desemparedamento_infancia.pdf

https://criancaenatureza.org.br/content/verdejando-o-aprender/

Comment(1)

  1. Alberto says

    Olá ecologistas. Seguem “mutilações” nas árvores em Novo Hamburgo e quem visitar a Feira ao lado da Catedral São Luiz observe os cortes ridículos que foram feito para “dar espaço” aos feirantes. Arroios, coitados, recebendo tinta todas as semanas. Lamentável…

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