O silêncio


 “Há um grande silêncio que está sempre à escuta.
         E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa.
         Qualquer coisa, seja o que for.
         Desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje.
         Até a tua dúvida metafísica hameleto.
         E por todo sempre enquanto a gente fala, fala, fala
         O silêncio escuta
         E cala…”
                                                       Mário Quintana


Silêncio! De todas as coisas naturais o silêncio talvez seja uma das maiores perdas do ser humano urbano contemporâneo. O ruído incessante dos automóveis que nem de madrugada se calam; o ruído das fábricas, do ar condicionado e das máquinas no dia-a-dia do trabalho; a TV quando chegamos em casa; os gritos do companheiro e das crianças que passaram o dia sem nossa presença, carentes do nosso contato humano que o corre-corre da vida impede. E o pior de todos os barulhos: o barulho interno, a preocupação constante com o emprego, com o status social, com a imagem pública que não nos abandona nem mesmo quando todos os outros ruídos se calam.


As pesquisas modernas nos dizem que a exposição frequente a sons de intensidade superior a 90 decibéis, conduzem à surdez. Qualquer descarga de moto tem capacidade para produzir ruídos desta grandeza . A perda da audição representa, em outras palavras, uma perda de sensibilidade, a incapacidade de ouvir o outro quando precisa de nós. Não é à toa que o rock’n roll é a expressão dos nossos tempos. Só gritando e fazendo barulho para sermos ouvidos. Se não ouvimos, nos afastamos uns dos outros ainda mais. Ficamos mais sozinhos e desesperados por não termos com quem repartir nossas angústias, nossos medos e nossas fraquezas.


Estamos ficando embrutecidos, frios e insensíveis. Estamos ficando surdos a tudo. Até a nós mesmos. Já não ouvimos mais nossa voz interior, nossa conselheira vital que sabe tudo. A voz da vida que há em nós e que nos põe em contato íntimo com a totalidade do universo. Tudo isto nos faz também gritar e agredir aos nossos próximos. Em outras palavras: também nós contribuímos para esta barulheira toda, para esta loucura da qual sempre queremos fugir.


Talvez por isto seja tão importante preservarmos locais para um contato com o silêncio de que fala o poeta. Só no contato com a natureza é que desfrutamos do alívio. É onde nos desarmamos em relação ao bombardeio sonoro que vem de fora e, após algum tempo, também ao barulho interno. Tudo se afrouxa, a respiração se acalma e de repente notamos que temos um corpo, que estamos vivos.

Arno Kayser
Agrônomo, ecologista e escritor


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