O Profissional da Educação Ambiental na Construção de Projetos Interdisciplinares

Enquanto as mudanças na dinâmica das sociedades anunciavam a necessidade de uma nova forma de educar, as temáticas ambientais apareceram como um importante ingrediente para a construção de uma sociedade mais ética e cidadã.

Foi na década de 60 que a sociedade brasileira, em consonância com os movimentos sociais internacionais, iniciaram uma crítica radical à sociedade capitalista industrial de consumo, questionando o modelo de desenvolvimento econômico vigente. Neste contexto, a ciência ecológica que crescia se agregava à agenda de lutas sociais em um movimento em busca de novos valores éticos, políticos e existenciais para a vida individual, familiar e comunitária.

A partir das práticas sociais e das possibilidades de estilos de vida que incluíam preocupações ambientais, a Educação Ambiental foi se constituindo como ações educativas/escolares para o meio ambiente, levando às instituições formais de ensino preceitos de vida integrados a manifestações da natureza. Desta forma, a escola começou a incorporar questões do campo ambiental, transformando-as em objetos de estudo. A partir disso, os educadores que incluíram este ideário ecológico em suas práticas pedagógicas, passaram a assumir a posição de educadores ambientais.

Atualmente, a Educação Ambiental está bem difundida no contexto escolar. Existe legislação, programas e projetos diversos que estimulam a relação entre princípios da sustentabilidade socioambiental e a educação. Porém, muito se fala sobre a temática, mas nem sempre as ações condizem com as necessidades urgentes que enfrentamos. Diante da escassez de recursos econômicos, humanos e de tempo para estudos e experimentações, necessários para um trabalho abrangente e de qualidade, muitas vezes a Educação Ambiental se resume a um grupo de atividades lançadas nas escolas, sem o devido contexto e integração. Além disso, temos toda uma cultura de consumo que minimiza as ações ambientais que se ocupam da transformação da sociedade em busca de uma vida mais ética, democrática, plural, tolerante e ecológica.

Diante de um cenário pouco promissor, a necessidade de se formar profissionais que se dediquem ao estudo e à prática da Educação Ambiental, sobretudo nos ambientes escolares, se torna urgente. O presente texto se ocupa de uma reflexão sobre o perfil desse profissional, pautado em uma Educação Ambiental transformadora e emancipatória. Como consequência, teremos projetos interdisciplinares, que fazem uso das preocupações sobre a realidade socioambiental como ponto de integração do currículo dos diferentes níveis escolares.

O Profissional da Educação Ambiental

A interdisciplinaridade é o caminho para que profissionais de diferentes áreas se debrucem sobre a questão ambiental, apontando “os caminhos híbridos” (RAYMUNDO e OLIVEIRA, 2010, p. 265) pelos quais profissionais diversos transitam pela Educação Ambiental, ressaltando a limitação em ações conservacionistas ou resolutivas desta prática.

Para fugir destas experiências dualistas, o potencial da Educação Ambiental emancipatória é apresentado, integrando o social e o ambiental. Neste ponto, a dimensão individual deve ser relacionada com a aprendizagem coletiva, integrando o interno e o externo do ser humano na busca por uma prática em EA dialógica, crítica e criativa.

Ao apresentar o “profissional educador ambiental” (RAYMUNDO e OLIVEIRA, 2010, p. 267) como um processo de formação, onde profissionais de diversas áreas se apoiam na Educação Ambiental para a realização de seus trabalhos, a condição de emancipadora se relaciona com a aprendizagem socioambiental, necessária para a superação do cenário de crise em que vivemos.

Idealiza-se um sujeito crítico e criativo em exercício profissional, “pertencente” a um processo de construção coletiva da aprendizagem sobre as causas e efeitos determinantes da presença ou ausência de qualidade no meio em que vive, refletindo e decidindo rumo daquilo que se deseja individual e coletivamente a partir de seu fazer cotidiano. (RAYMUNDO e OLIVEIRA, 2010, p.267)

Desta forma, é necessário recriar os diferentes profissionais para estruturar suas atuações como “profissional educador ambiental”. Tal procedimento diz respeito à formação continuada profissional, que qualifica o trabalho individual diante do coletivo, permitindo a ampliação e interconexões entre saberes.

Além disso, a relação entre o sujeito e seu público-alvo, no cotidiano das profissões, é redimensionada na atuação do “profissional educador ambiental”. As posições se cruzam em uma dinâmica de corresponsabilidade, exigindo o envolvimento de todos para a construção de soluções criativas para as demandas ambientais.

Inspirado em Paulo Freire, o “profissional educador ambiental” se ocupa do fazer pedagógico pautado na práxis, integrando ensino e pesquisa na busca de uma aprendizagem mais significativa e transformadora.

Tem-se, portanto, um profissional que nunca estará totalmente formado. Que precisa reinventar suas estratégias a cada novo desafio, para que “(…) os atores sociais sintam-se pertencentes ao processo na medida em que seus próprios conhecimentos também são validados e valorizados” (RAYMUNDO e OLIVEIRA, 2010, p. 269). Tal “profissional educador ambiental” é apresentado, portanto, como uma utopia que buscamos para a efetivação das transformações necessárias para o equilíbrio ecológico, social, cultural e econômico do planeta.

Felizmente, “os profissionais educadores ambientais já se manifestam discretamente em algumas dimensões do nosso viver, mas necessitam de investimentos pedagógicos, metodológicos, educacionais, políticos e financeiros” (RAYMUNDO e OLIVEIRA, 2010, p. 269). Assim, a utopia se transforma em um horizonte a ser alcançado nos diferentes espaços, onde profissionais dedicados ultrapassam a barreira das limitações impostas por suas profissões enquanto buscam um mundo mais sustentável para si e para todos que convivem com eles, através de reflexão constante de sua prática profissional.

Está tudo interligado. Por isso, o maior desafio está na formação do professor – de todas as áreas e níveis – para a Educação Ambiental, nela deve-se integrar as diversas áreas de atuação humana para se construir as alternativas sustentáveis que garantirão a vida para as futuras gerações em nosso planeta.

Potencial da Educação Ambiental na Integração Curricular

A visão conservacionista da Educação Ambiental é um ponto que precisa ser urgentemente superado. Claro que as ciências naturais são parceiras do entendimento que podemos ter sobre o ambiente que nos cerca, mas sem a inclusão das ciências sociais nesta discussão, os objetivos apontados para a EA desde a Carta de Belgrado (1975) não serão atingidos.

A Educação Ambiental pressupõe a superação das dualidades existentes no meio científico. Uma vez que “as partes surgem diante de nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo” (SATO & PASSOS, 2009, p. 12), devemos buscar nos projetos de Educação Ambiental Escolar uma construção sistêmica que envolva interações e mútuas implicações que valorizem o caminho percorrido, em uma prática pedagógica interdisciplinar.

Qualquer projeto de Educação Ambiental desenvolvido no ambiente escolar se alinha ao objetivo geral do processo educativo: formar as novas gerações para a vida em sociedade. Seguindo os princípios freireanos da educação, agregamos a este objetivo o caráter emancipatório desta formação, onde a escola abre espaços para que os jovens possam se conscientizar dos potenciais e limites na relação entre a liberdade e a autonomia no curso das relações sociais existentes.

Como seres biológicos e culturais, vivenciamos nossas relações sociais na natureza. Segundo Loureiro (2005), a emancipação é um processo onde estabelecemos uma posição dialógica com o mundo, de modo que possamos potencializar ideias, sinalizar opções e consolidar alternativas. Uma vez que “temos responsabilidade para com os demais, nos constituímos na relação ‘eu-outro’ (nós) e compartilhamos o mesmo planeta” (LOUREIRO, 2005, p. 160), este processo emancipatório está intimamente relacionado com o ideário transformador presente em práticas de Educação Ambiental.

O movimento realizado entre a escola e a comunidade pressupõe que a formação escolar ultrapasse os tempos e espaços escolares, valorizando a participação social. Assim, projetos de Educação Ambiental Escolar devem envolver a investigação ambiental que valorizem as realidades onde os mesmos estarão inseridos. É importante entender que “toda estratégia grupal deve verificar as necessidades e as realidades locais, inseridas em contextos múltiplos que se circunscrevem em cada ação” (SATO e PASSOS, 2009, p. 21) e por isso, se entendermos a cidadania participativa como um princípio da Educação Ambiental, os projetos devem ser contextualizados diante dos valores, hábitos e ações de cada comunidade escolar. Independente da problemática apontada, “é preciso que cada um se perceba como agente participativo da comunidade” (SILVEIRA e HESS, 2013, p. 55), apontando a cidadania como um exercício político, ou seja, que envolve direitos e deveres dos atores sociais.

Desta forma, a lógica dos direitos se sobrepõe à lógica dos interesses, onde o questionamento do estilo de vida capitalista surge em uma abordagem subjacente às temáticas escolhidas para os projetos. Ascelrad (2005) aponta que a justiça ambiental se refere ao direito a ambientes culturalmente específicos, à proteção ambiental equitativa, ao acesso universal diante dos recursos naturais e à garantia destes direitos para as populações futuras. Para tanto, o acesso à informação é fundamental, e um projeto que vise a construção de uma consciência ecológica precisa oferecer informações atuais, abrangentes e múltiplas que servirão de subsídio para as decisões individuais diante das questões ambientais coletivas.

Palavras Finais

Portanto, podemos fazer uma relação entre a formação para a Educação Ambiental e a construção de projetos interdisciplinares. Cada nova informação vai se agregando àquelas que já estão consolidadas em nossa formação, porém também é preciso desconstruir ideias para poder avançar. Uma formação continuada para a Educação Ambiental, que integre a complexidade da dimensão socioambiental da natureza, permite a integração de conteúdos presentes nos currículos escolares. Dessa forma, independente da etapa onde o profissional atue, há o potencial de integração que deve se expressar em projetos escolares interdisciplinares. Diante do contexto educacional brasileiro, cada profissional deve refletir sobre sua formação, buscando preencher as inconsistências percebidas. Existem diversas dimensões que não dependem somente da nossa atuação, porém é preciso investir no protagonismo diante da própria formação, cientes da nossa incompletude diante dos desafios que a profissão docente impõe.

 

Referências Bibliográficas

ACSELRAD, Henri. Justiça Ambiental In: Encontro e caminhos: formação de educadoras(es) ambientais e coletivos educadores. 2005. p. 217 – 228.. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/encontros.pdf>

LOUREIRO, Carlos Frederico B.. Emancipação. In: FERRARO JÚNIOR, Luiz Antonio. Encontros e Caminhos: Formação de Educadoras(es) Ambientais e Coletivos Educadores – Volume 2. Brasília: Mma, Diretoria de Educação Ambiental, 2007. p. 157- 170. Disponível em:<http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/encontros_2.pdf>.

RAYMUNDO, Maria Henriqueta Andrade; OLIVEIRA, Vivian Gladys de. Profissional Educador Ambiental. In: FERRARO Jr., Luis Antônio (org). Encontros e caminhos: Formação de Educadoras(es) Ambientais e Coletivos Educadores. Brasília: MMA, Diretoria de Educação Ambiental, 2007, v. 2, p. 267- 274.

SATO, Michèle; PASSOS, Luiz Augusto. Notas desafinadas do saber e do poder: qual a rima necessária à educação ambiental?. Contrapontos, Itajaí, v. 3, n. 1, p.9-26, mar. 2009. Disponível em: <http://www6.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/700/553>.

SILVEIRA, Barbara Milene; HESS, Bárbara. A Educação Ambiental como processo de cidadania participativa. In: MACHADO, Carlos Roberto da Silva; SANTOS, Caio Floriano dos (Org.). Educação ambiental e mudanças ambientais globais no estado do Rio Grande do Sul: subsídios ao estudo. Rio Grande: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Universidade Federal do Rio Grande, 2013. p. 51-62. (Processo formador em Educação Ambiental a Distância: módulo 5).

 

Por Daniela Vieira Costa Menezes
Professora da Rede Municipal de Ensino de Novo Hamburgo-RS. Licenciada em Pedagogia, especialista em Educação Ambiental, Limites e Potencialidades para a Formação Continuada e Tenologias da Informação e Comunicação aplicadas à Educação.

Comment(1)

  1. Prof. Schmeling says

    Este trabalho merece ser encaminhado a todas as entidades que congregam professores e diretores de escolas – públicas e particulares – para ser discutido em congressos e ouros encontros!

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