Lembrando Lutzenberger

Em Janeiro de 2002, JOSÉ LUTZENBERGER proferiu, no Fórum Social Mundial, um breve discurso. Provavelmente o último registro de seu pensamento em um evento de caráter mundial. Mesmo passado algum tempo de sua morte, em maio daquele ano, vale a pena lembrar-se da forma singular de ver o mundo deste “Grande Mestre Irado”, neste breve apanhado de algumas das suas principais idéias:

Vou tentar fazer uma exposição simples e colocar as verdadeiras causas dos problemas que temos no nosso planeta. Até onde se sabe as outras estrelas não podem ter vida. Mas mesmo que haja milhões de planetas que tenham vida, dificil-mente manteremos contato em função das enormes distâncias.

Nos últimos tempos cresceu a preocupação ecológica no público em geral, porém estamos longe de que esta seja suficiente. Estas coisas têm que ser enfrentadas ao nível local com a coragem necessária para isto.

Antigamente não se dividia o mundo em desenvolvidos e subdesenvolvidos, eram apenas diferentes culturas e civilizações.

O problema é que o que chamamos de desenvolvimento é o desastre. Criou-se um maniqueísmo em que o desenvolvimento é um bem e que o subdesenvolvimento um mal. Vivemos o tempo do fundamentalismo da sociedade de consumo que luta para dominar todo este planeta. Entendo que haja, hoje, um mundo dividido entre os mal desenvolvidos e os não tão mal desenvolvidos. A solução proposta é de mais consumo ainda.

Este fundamentalismo do consumo tem como dogma a tecnologia cada vez mais sofisticada e agressiva à natureza e a ridicularização de quem é contra esta tecnologia.

Quanto mais nos aprofundamos, mais nos espantamos. Aquilo que se chama progresso é um desastre. Não está havendo a crítica necessária à tecnologia. A tecnologia se torna cada vez mais sofisticada e agressiva à natureza. E a maior parte das pessoas é analfabeta em ciências naturais.

Eu gosto de definir a ciência como o diálogo com a divina beleza do universo. Porém confundem ciência com tecnologia, como se fossem sinônimos.

A ciência é uma coisa, a tecnologia é política, pois tem um objetivo de dominar tecnologicamente a natureza em favor da vontade de um grupo social.

A tecnocracia está montando estruturas tecno-burocráticas. Foi-nos dito que não temos democracia. Democracia real seria quando pudéssemos intervir sobre as grandes infra-estruturas.

Hoje não podemos viver sem carros, computadores e programas novos todos os anos. E isto é decidido pelas elites dominantes apoiadas pelos estados e fica fora do controle democrático da sociedade.

Precisamos de uma crítica política da tecnologia no sentido de tecnologias que visem às necessidades humanas em harmonia com a natureza. Tecnologias brandas, simples e baratas. Tudo diferente da tecnocracia que só quer concentrar poder.

Schumacher (Small is Beatiful) já escrevia que precisamos satisfazer as necessidades. O socialismo e o capitalismo são filhos do industrialismo global. Precisamos entender o que está acontecendo. No balanço do PIB não entram os valores essenciais como beleza, amor e amizade. Precisamos de um balanço econômico que considere entradas e saídas. Mas é com o PIB que os países calculam o progresso.

Não somos as únicas criaturas do universo. Temos que abandonar a ideia antropocêntrica legada pelo nosso passado judaico-cristão. Todos os seres têm direitos. Temos uma responsabilidade evolutiva com a sinfonia orgânica e temos de parar de agir como um tumor cancerígeno cheio de metástases pelo planeta.

Pensar e contestar, cada vez mais gente tem que entrar nesta.”

Quem quiser saber mais sobre o pensamento de Lutzenberger pode procurar no You Tube o vídeo “Lutzenberger – Forever Gaia – filme”. Um documentário de sua vida e pensamento.

Arno Kayser, presidente do Movimento Roessler.

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