José Lutzenberger no IV Fórum Internacional de Administração

Palestra proferida por José Lutzenberger no IV Fórum Internacional de Administração

Outubro de 1995 – Miami

Todo o mundo sabe que essa cultura industrialista global, que hoje tomou conta do planeta e que, agora, está acabando com as últimas culturas ainda genuínas e diferentes – ainda há pouco falávamos do desaparecimento, somente no Brasil, de centenas de idiomas indígenas, sem falar nas culturas milenares de cada uma daquelas tribos – todo o mundo sabe que essa cultura industrialista global é insustentável. Por isso, já em 1992, houve aquele grande congresso mundial, onde participaram representantes de 180 países diferentes, cujo tema era justamente o desenvolvimento sustentável.

Durante semanas se discutiu desenvolvimento, mas não se tomou nenhuma decisão que realmente nos levasse a uma situação sustentável. A maioria das pessoas nem sabe o que significaria isso. Aliás, a Primeira Ministra da Noruega, que foi praticamente a pessoa que teve a idéia de fazer aquele congresso, continuava falando de crescimento sustentável. Desde quando que crescimento pode ser sustentável? Todo o crescimento, mesmo que as taxas sejam pequenas, tem de chegar a algum ponto de equilíbrio e de fim. Façamos uma simples extrapolação: nós, humanos, quando nascemos, duplicamos o nosso peso inicial em três meses.

Se continuássemos fazendo isso toda a vida, uma pessoa da minha idade, 69 anos, duplicando o seu peso em cada três meses, durante 69 anos, daria 2 elevado a 69 X 4. Dá uma cifra maior do que a das partículas elementares do universo conhecido, ou seja, 1,21 X 10 elevado a 83! Então, todo o crescimento só pode ser exponencial durante pouco tempo, depois ele tem de entrar num equilíbrio. Aliás, na natureza, sempre quando há crescimento, ele é exponencial durante um período muito curto; depois, ele entra numa sinozoidal ou cai. Os sistemas vivos, esses, sim, se mantêm uniformes, não crescem, mas são tremedamente dinâmicos. Então, é um absurdo se querer falar de crescimento sustentável. Um desenvolvimento sim, pode ser sustentável, e pode até mudar em qualidade, mas não em quantidade.

Entretanto, a doutrina que prevalece hoje no nosso pensamento econômico quer crescimento sem fim. Os economistas acham que uma economia que não está crescendo é uma economia doente. Vou dar a vocês agora uma metáfora, um exemplo concreto de comportamento sustentável, de um lado, e não-sustentável, de outro. Lá no Rio Grande do Sul, temos os fazendeiros tradicionais, ganadeiros. Não confundir com os fazendeiros do Brasil central, muitos dos quais têm sangue nas mãos, porque com os seus jagunços mataram e mandaram embora o que eles chamam de posseiros. Mas, a fazenda no RS é uma cultura tradicional muito bela e que não se baseia sequer no desmatamento.

Temos o pampa, um pasto natural, bastante parecido ecologicamente com as regiões das grandes pradarias dos EUA e do Canadá. O fazendeiro sabe que, se ele tem 1.000 reses, ele pode mandar para o matadouro 100, 150 por ano. Então, ele está vivendo dos juros de seu capital. Se ele mandasse mais, ele se descapitalizaria. E, de fato, a fazenda já tem 300 anos ou mais de tradição e continua saudável. Só o fazendeiro que não sabe administrar e que gasta mais do que o desfrute de sua tropa acaba tendo de vender a sua fazenda.

Tínhamos, numa outra região do Estado, onde estavam as magníficas e belas florestas de araucária, uma outra cultura, o madeireiro. Ele olhou a floresta, que não era dele, para cuja existência ele não contribuiu absolutamente em nada e passou a tirar o que podia. Vendeu barato e vendeu cada vez mais. A araucária não existe. Essa cultura entrou em colapso. O fazendeiro vive dos juros de seu capital. O madeireiro, da maneira como se fazia naquela época, vivia do consumo do capital. Todo o mundo sabe que, se eu vivo do consumo do capital, posso viver grandes orgias, mas o dia da verdade chega inevitavelmente. Então, ninguém mais vai me invejar. Ora, a moderna sociedade industrial é um esquema de consumo de capital.

Temos, hoje, uma situação no mundo em que 20% da humanidade, os povos do chamado Primeiro Mundo e os ricos do Terceiro – aliás, lá no Brasil, pelo menos no sul, também somos Primeiro Mundo, mas temos muito terceiro mundo dentro, e aqui já tem um Terceiro mundo também – os 20% que vivem essa sociedade de consumo, vivem um estilo de vida insustentável, insustentável mesmo para eles. Vocês estão vendo aqui mesmo, ontem à noite, observando esse edifício aqui do lado, não sei se é um banco, com uns 30 ou 40 andares, iluminado feericamente. Ninguém olhando, uma parte da cidade quase morta. Fiz as contas, ali vai mais de 1 megawatt de energia só naquela iluminação. Para quê? Aqui também não se encontra em lugar nenhum água sem gelo. Ora, para fazer esse gelo custa um mundo de energia. Fica tudo aqui, a maior parte disso, 90% não se aproveita. Então, esse estilo de vida não é sustentável nem para os 20% que o praticam.

Entretanto, a doutrina básica de desenvolvimento, que é seguida por todos os países do mundo, com muito poucas exceções, conheço uma só, era a mesma para os comunistas, para os capitalistas, os Fidel Castro e os Pinochet. Para todos eles, a doutrina básica diz que esse estilo de vida deve estender-se ao planeta inteiro. Hoje, por exemplo, os grandes capitães da indústria automobilística alemã estão vibrando com o gigantesco mercado que esperam ter para os seus carros na China, na Índia. Eles crêem, realmente, que vai chegar o dia em que o último chinês, no último rincão do Deserto de Gobi, ou o último caboclo no vale mais profundo da Amazônia, também terão dois carros por família. Façam a conta: já são meio bilhão de carros, hoje, 500.000.000 carros particulares, e já é demais.

Se a humanidade toda – e agora já somos 5,6 – 5,7 bilhões de pessoas e, a cada ano, acrescenta-se mais 100.000.000 – tivesse a taxa de carros que temos aqui (1,7 habitantes por carro), seria inconcebível. Quer dizer que algo está errado com os nossos próprios alvos. Não é o chinês que está errado por não ter carro, quem sabe nós estamos errados por termos demais. Realmente, temos que repensar muita coisa. O fato de não ter acontecido coisa muito grave ainda não quer dizer que não esteja próximo de acontecer. Aliás, coisas graves estão acontecendo todos os dias. Temos agora no planeta mais de 150 conflitos armados. Temos calamidades como a de Ruanda -Burundi, que têm causas meramente ecológicas. Vou dar outra imagem. Digamos que eu tenha uma planta, uma tomateiro, e sucede um ataque de pulgão.

Do ponto de vista do pulgão, é muito lindo e vai crescendo a sua população. Dois, quatro, oito, dezesseis, trinta e dois, sessenta e quatro, cento e vinte e quatro, daqui a um pouco serão 250, depois 500, 1.000, 2.000, 4.000.

Inevitavelmente chega um momento em que a planta não agüenta; a planta morre e aquela população de pulgões morre junto. No caso do pulgão e do tomateiro, sempre sobram alguns pulgõezinhos que vão depois colonizar outros tomateiros, mas nós não temos outro planeta. E tem mais uma diferença fundamental. Aquele pulgão na planta cresce numericamente; nós, além de crescermos numericamente, crescemos violentamente em impacto ambiental. Conheci essa cidade, Miami, quando eu era estudante, em 1952. Era uma coisa muito linda, charmosa, tinha uma natureza incrivelmente bela.

Hoje, não reconheço absolutamente nada, com exceção de dois ou três edifícios antigos. O impacto ambiental de cada um de nós, hoje, é incrivelmente superior ao daquele tempo. Naquela época, não se faziam coisas loucas como essa iluminação. Recentemente, foi introduzida no Brasil a lata de cerveja de alumínio. Foi-nos apresentada como grande progresso. Na realidade, é um desastre. Vocês já se deram conta que, para fazer esse tipo de coisa, fazemos as devastações que estamos fazendo no Carajás e que para fabricar cada lata de cerveja necessitamos 1.400w/h de eletricidade. Uma lata de cerveja significa a energia elétrica de uma lâmpada de 100w queimando por 14 horas. Usamos para um pouquinho de cerveja e atiramos fora. Mesmo para reciclar, temos que gastar enormes quantidades de energia.

Estamos numa situação pior do que aquela do pulgão. Além de crescer numericamente, estamos mais gordos também e consumindo cada vez mais. Por quanto tempo pode continuar essa situação? Realmente precisamos repensar muita coisa. Em primeiro lugar, temos que repensar o nosso pensamento econômico. O nosso pensamento econômico está totalmente desvinculado, alienado da natureza do planeta, da natureza da vida. Os economistas parecem que pensam num nível transcendental. Eles enxergam somente números. Vejamos a medida que eles usam para medir progresso: PNB, também chamado PIB, Produto Interno Bruto ou Produto Social Bruto. O que é o Produto Nacional Bruto? O Produto Nacional Bruto é apenas a soma dos fluxos de dinheiro dentro de uma economia. O pressuposto é de que se quer saber a soma das rendas das pessoas. É verdade que, cada vez que eu compro alguma coisa, que gasto dinheiro, alguém tem essa renda. Então, o Produto Nacional Bruto nada mais é do que a soma das rendas. Mas será que isso serve como medida de progresso? Afinal de contas ele não me diz nada, absolutamente nada sobre justiça social; ele não me diz nada sobre qualidade de vida.

Vejamos um detalhe: O Produto Nacional Bruto norueguês ou sueco, que está por volta de 22.000, 23.000 dólares per capita por ano, devido ao clima, uma clima muito frio, deve conter pelo menos 5.000 a 6.000 dólares de movimentação de dinheiro causada por razões climáticas: roupa mais quente, calefação, arados de neve, “ice breakers”, barcos quebra-gelo, sal nas estradas no inverno, etc. Ora, nós, brasileiros, não precisamos nada disso. Temos um clima que nos dá de graça tudo isso.

Então, será que nesse ponto, nós, brasileiros, somos 5.000 dólares mais pobres do que os noruegueses? Não! Somos 5.000 dólares mais ricos, porque não precisamos de tudo isso! Não precisamos de arado de neve, etc. Então, por aí vocês já podem ver que o PNB não nos diz nada sobre a qualidade de vida. Os economistas – estou falando da economia convencional, esta que predomina hoje e a que é escutada pelos nossos governantes – têm uma pretensão absurda: querem ser científicos. Nas Ciências Naturais, existe uma pretensão, a pretensão de que uma disciplina científica é tanto mais científica quanto mais ela usa matemática. Quanto mais complexa essa matemática, mais científica. Mas Economia o que é? Economia tem a ver com distribuição de riqueza.

Desde quando isso é ciência? Isso é disciplina social; isso é ética; isso está mais próximo de religião, de política do que de ciência. Agora, como eles querem usar matemática complicada, com fórmulas cada vez mais complicadas também, temos de fazer uma consideração interessante: Quando o físico, o astrônomo, o engenheiro usam a matemática, eles inserem em suas fórmulas unidades de medida como o quilo, o metro, o litro o Watt, o Ampère, o Volt, o Roentgen, o Ohm, o grau Centígrado, ultimamente as medidas todas de irradiação, o Curie, etc. Tudo isso são abstrações, precisamente definidas, de realidades materiais ou energéticas. Quando o economista usa fórmulas complicadas, qual é a unidade de medida que ele introduz? Reais, cruzeiros, marcos, dólares. Mas, o que é um real, um dólar? Não se pode comparar esse tipo de medida com quilo, metro, litro. Uma unidade monetária é um contrato anônimo.

Como vou fazer uma matemática complicada com esse tipo de coisa? Por isso, no Produto Nacional Bruto, como ali só entra dinheiro, as coisas mais importantes da vida, tudo aquilo que não se pode medir com dinheiro não entra. Onde, nos cálculos dos economistas, entra felicidade, satisfação, amor, amizade, beleza, harmonia, saúde, o mundo belo? Tudo isso não entra nos cálculos dos economistas, porque eles só enxergam o fluxo de dinheiro. Hoje, temos ainda um fluxo de dinheiro mais abstrato, bilhões ou trilhões de dólares flutuam em volta do planeta, na velocidade da luz, de um mercado a outro para pegar pequenas diferenças de cotações, e já não têm nem a mínima ligação com realidades concretas.

Então, essa medida, o Produto Nacional Bruto, que só mede fluxo, nada diz sobre qualidade de vida, nada nos diz sobre justiça social. Quando se diz que o Produto Nacional Bruto de um país escandinavo está por volta dos 20, 23 mil dólares, o nosso está, se não me engano, abaixo dos 3.000. Aí, diz-se que os noruegueses são oito vezes mais ricos do que nós. Será que eles são oito vezes mais felizes? No Brasil, temos gente, aqueles usineiros do norte e outros, que além de serem ricos, recebem todo o tipo de subvenção, que faturam US$ 100.000.000 por ano, ou dezenas de milhões, e temos o homem gabirú – aquele homenzinho que era pequeno de tanto trabalhar e comer mal, tem de viver com US$500,00 por ano, alimentando a família com lagartos, com insetos, com vermes. Então, que adianta dizer que temos um PNB de US$3.000,00, se tem gente ganhando milhões por ano e outros não ganhando nada. Isso é como se eu dissesse: olha, eu estou me sentindo muito bem.

Estou com o meu pé esquerdo em nitrogênio líquido, a menos 200 graus, e estou com o meu pé direito em estanho líquido a 230 graus. Dá 30 graus de média, estou me sentindo bem. O PNB não nos diz absolutamente nada sobre justiça social. Ele não nos diz nada sobre custos. Ao contrário, ele adiciona os custos. Cada acidente movimenta dinheiro. Se cai um 747, isso movimenta milhões de dólares: primeiro, no seguro, depois, na compra de um avião novo; se houver enterros ou custo de hospital, se houver sobreviventes, tudo isso aumenta o PNB. Que medida é essa que mede como progresso o que, na realidade, é desastre?

Se a poluição continuar, a ponto de nos deixar todos doentes, se tivermos que construir sempre mais hospitais, gastar sempre mais dinheiro em medicina, em remédios, a indústria farmacêutica vai crescer mais ainda, o PNB sobe, mas a população fica mais infeliz. Então, que medida é esta? Ela não desconta a perda de recursos. Vejam, no Brasil, inundamos milhares de quilômetros quadrados de floresta, como fizemos em Tucuruí, para fazer eletricidade, que é entregue abaixo do custo de produção ao Complexo Carajás para fazer alumínio. Entre outras coisas, ali se demolem montanhas inteiras – o Projeto Carajás contribuiu também para a destruição de mais de 100.000 quilômetros quadrados de florestas ao longo da estrada de ferro. Nas contas nacionais, como elas são feitas pelo nosso governo, só entram as divisas que ganhamos com a exportação do minério e do alumínio.

Em nenhum lugar, se desconta a perda da floresta. No caso do aço, em Minas Gerais, o Estado todo foi quase deflorestado para fazer carvão vegetal. Em nenhum lugar, no PNB, descontamos a perda da floresta, a demolição da montanha, a diminuição nas reservas de recursos naturais. Sem falar na marginalização de, no caso de Tucuruí, 15.000 pessoas, e no genocídio de duas tribos indígenas. Onde, nas contas nacionais, descontamos essas coisas? Este País aqui, já retirou do solo mais de 90% de seu petróleo. Onde, na conta dos economistas americanos, está descontada essa perda? Não existe mais esse petróleo, já foi queimado. É como se eu, como indivíduo, fosse ao meu banco, retirasse dinheiro da minha conta, gastasse em orgias e festas e, depois, me sentisse mais rico. Mas estou mais pobre! Todos os nossos países a cada dia estão mais pobres.

Com cada recurso que gastamos, estamos mais pobres. Mas os nossos economistas e os nossos governos enxergam riqueza nova, porque somente vêem os números que expressam fluxo de dinheiro, e não as coisas reais e as situações das pessoas. Realmente, precisamos de uma nova contabilidade. Imaginem se os governos – e vocês aqui são na maioria administradores de empresas – fizessem uma conta igual a que fazem as empresas. Eu sou empresário também, um pequeno empresário – aliás, não tão pequeno, tenho umas 120 pessoas trabalhando comigo. Na minha empresa, faço uma conta bem concreta. Somamos, de um lado, todas as entradas e descontamos, do outro lado, todas as saídas. Descontamos também amortizações. Um trator que compro hoje por R$ 100.000,00, no fim do ano vale só R$ 90.000,00; se forem 7 anos de amortização ao invés de 10 , vale menos.

Se eu tiver que vender uma casa, se eu tiver que vender qualquer coisa, tudo isso tem de ser descontado também. Entra dinheiro de um lado, mas sai capital do outro. Agora, o PNB não faz esse tipo de conta; ele soma tudo. É como se o dono do bar, que compra o barril de cerveja a um preço X; depois, conseguindo vendê-lo em chope a 2X, fizesse a seguinte conta: X mais 2X mais os gastos com garçom, mais o aluguel, mais a luz – daria um número muito bonito! Mas, então, ele poderia vender mais barato do que comprou; ele poderia comprar um barril a 2X e vender o chope a X, e daria o mesmo balanço. Os governos fazem esse tipo de conta, porque só se interessam no fluxo de dinheiro, não nas coisas reais, na real felicidade do povo.

Temos de obrigar os governos a fazer contas empresariais. Se o Brasil fizesse uma conta empresarial, ali estaria descontada a devastação da Amazônia, a devastação do cerrado, a devastação que agora está se fazendo nos manguezais para criar camarão. Estaria, de alguma maneira, sendo levada em conta a incrível marginalização que temos, a infelicidade, as doenças, tudo isso tem de entrar na conta. mas, que eu saiba, nenhum governo está fazendo isso. Conheço só um governo no mundo, o governo de Butã, que está propondo, mas ainda não fez, uma nova medida, em vez de “Gross National Product”, ou Produto Nacional Bruto, eles estão propondo “Gross National Happiness”, a Felicidade Bruta Nacional. Realmente, precisamos de novas maneiras de fazer contas. Aí está um apelo a vocês, administradores de empresas.

Vamos propor aos governos que façam contas semelhantes às que faz uma empresa. Temos de nos perguntar por quê, por que se chegou a esse ponto? Por que os governos não enxergam que estão fazendo um absurdo? Acontece que os governantes confundem economia de empresa com economia nacional. Quando um grande empresário, especialmente agora os das grandes corporações transnacionais, diz: “isso eu não posso fazer, isso não é econômico, não dá para fazer”, ou ele diz o contrário: “só dá para fazer de tal maneira porque senão não seria econômico”, ele está se referindo à economia de sua empresa. Dentro desse enfoque, ele está certo. Se o governo aceita esse raciocínio e aplica à economia nacional, não está certo, porque os interesses da empresa não são, necessariamente, os interesses da economia nacional. Vejamos um experimento mental: Digamos que aqui existe petróleo, mas esse petróleo está tão fundo e não tem pressão própria que, para tirar, preciso gastar mais energia na bomba do que a energia que vai me dar o petróleo.

Ora, nesse tipo de poço é melhor, do ponto de vista da economia nacional, não tocar, vai dar prejuízo para o povo, vai nos tornar mais pobres. Agora, se eu for um empresário, politicamente forte, e conseguir subsídio, ou no preço da venda do meu petróleo, ou no preço da energia, então, para mim, pode ser um grande negócio. Observem bem as tecnologias hoje predominantes e verão que grande parte, senão a maioria das grandes tecnologias, que hoje nos são propostas, que nos são impostas, são desse tipo. São tecnologias concebidas e impostas por grandes centro de poder – hoje, principalmente, as corporações transnacionais -, tecnologias concebidas no interesse delas, não da economia nacional. Infelizmente, estamos hoje numa situação em que a maioria das pessoas não tem condições de ver o que está acontecendo, porque, apesar de sermos uma cultura 100% baseada em tecnologia, tecnologia cada vez mais complexa, cada vez mais sofisticada, que, por sua vez, baseia-se em ciência cada vez mais profunda, apesar disso, a grande maioria das pessoas, nessa cultura, é totalmente analfabeta em Ciências Naturais e Tecnologia.

Aqueles que não o são, são especialistas estreitos, com raríssimas exceções. Então, as pessoas nem se dão conta de como funcionam os centros de poder. Temos agora uma situação em que ao invés das grandes empresas transnacionais competirem entre elas, os nossos governos estão competindo entre si pelos favores delas. Está acontecendo lá no Rio Grande do Sul.

O nosso governo está louco para trazer a Mercedes, e, se a Mercedes disser que sim, eles vão dar tudo o que ela quiser, vão dar de graça, como deram no caso do Pólo Petroquímico, mais uma vez confundindo a economia de empresa com a economia nacional. Tudo isso são aspectos que temos de repensar e há outro aspecto, onde todo o mundo pensa que estamos indo bem, quando na realidade estamos indo muito mal: as forças do mercado! Depois do colapso, dá quase para dizer depois do suicídio, dos regimes repressivos do leste, o dogma que mais se ouve é o de que as forças de mercado vão resolver tudo. As forças de mercado vão encher as prateleiras de mercadoria. E, de fato, quando Fidel, recentemente, liberou novamente os camponeses cubanos para venderem os seus produtos na cidade, os cubanos passaram a ter comida suficiente.

De fato, as forças de mercado são um mecanismo cibernético muito bom para encontrar o equilíbrio entre forças opostas, entre o que no mercado se chama oferta e demanda, porque, afinal, preço é sempre uma coisa subjetiva. Não existe um preço real, objetivo. Se eu tiver na minha mão uma bola de ouro, esta pode valer muito dinheiro numa joalheria. Agora, se estiver morrendo de sede no deserto, serei capaz de entregar um quilo de ouro por um copo de água. Então, o mercado procura achar esses equilíbrios. Entretanto, o mercado só nos dará um equilíbrio socialmente justo e ecologicamente satisfatório se for completo e não manipulado.

Os nossos mercados, hoje, quase todos são manipulados e incompletos. Vejamos outra metáfora: Digamos que estamos num leilão. Está sendo oferecida uma obra de arte muito valiosa, antiga, digamos um vaso chinês de 1.000 anos, e estão presentes na sala diretores de museus que sabem o valor dessa obra. Pode valer centenas de milhares de dólares. Acontece que, quem está oferecendo, é ladrão e está querendo se livrar da peça ligeiro. Se os diretores de museu estiverem de acordo, se se entenderem, eles vão comprar esse vaso por 200 ou 300 dólares, e o ladrão vai sair satisfeito. Pensem bem. Esta não é a situação de nossos recursos naturais no Terceiro Mundo? Quem é que está vendendo a Floresta Amazônica; é o índio? É o cabloco? Quem é que está vendendo as madeiras de Sarawak, na Malásia? É o povo de Penang, que está brigando desesperadamente para preservar as suas florestas? Não, são bandidos do governo de lá!

Uma vez tive uma conversa com um africano, no Senegal, faz uns 10 anos. O homem me disse: “Sabe de uma coisa, quando isto aqui era colônia, a situação era bem clara. Se alguém falava francês, tinha a pele branca, eu sabia que ele era meu parasita, meu explorador. Hoje, os meus piores parasitas, os meus piores inimigos têm a minha cor de pele e falam o meu dialeto”. Quem é que está vendendo as montanhas brasileiras? Quem é que está vendendo os nossos recursos? São aqueles que ali vivem? Aqui neste país, as florestas lá no norte, na costa do Pacífico, florestas que estão entre as mais belas, as mais fantásticas do mundo, árvores de 150m de altura, algumas de diâmetro de 10 a 12m, idades que vão até dois mil e poucos anos, estão sendo derrubados e exportados a um ritmo tal que já sobram só 10%.

Na Amazônia, ainda sobram 80%; lá, sobram 10%. E o próprio Al Gore, como Vice-Presidente não conseguiu fazer nada. Continuam derrubando. Em 10, 15 anos não vai sobrar nada, a não ser que haja uma mudança política imediata. Agora, os índios que lá vivem, que lá estiveram durante milhares de anos, para eles, aquelas florestas são sagradas. Os direitos deles são simplesmente desconsiderados. Quem é que está derrubando? São empresas americanas, escandinavas e até australianas, japonesas, neozelandesas que recebem dos respectivos governos estaduais, tanto de Oregon, como Washington, como British Columbia, Alasca, concessões, sem perguntar pelos direitos daquele povo que ali vive. Então, aí temos um mercado manipulado. Outro aspecto: As forças do mercado, assim como elas funcionam hoje, são completamente cegas às necessidades da maior parte da humanidade.

Aquele pobre indiano que, em Calcutá, morre na rua, cujo cadáver, de manhã, o caminhão do lixo leva e cuja fortuna consistia no máximo de um pano, de um turbante sujo, aquele pobre homem, como o homem gabirú, lá do nordeste brasileiro, tem tremendas necessidades, mas ele não tem demanda, porque ele não tem dinheiro. O mercado só enxerga demanda expressa em dinheiro, não enxerga reais necessidades. Posso ter tremendas necessidades, mas, se não tenho um “tostão”, no mercado simplesmente não existo. O mercado é completamente cego para grande parte da humanidade. Então, teríamos que introduzir, quem sabe, um “ombudsman” para representar essa parte da humanidade. O mercado é mais cego ainda para outro aspecto mais fundamental: as gerações futuras. Vocês já pensaram, se as gerações futuras, as crianças que vão nascer daqui a cinqüenta anos, daqui a cem anos, se elas tivessem alguma representação nos nossos mercados atuais, se estaríamos fazendo as coisas que estamos fazendo hoje? Existiria uma Miami como esta que nós estamos vendo aqui?

Pensem bem, pena que o tempo é muito pequeno, muito curto, não podemos entrar em mais detalhes. Mas, se as gerações futuras tivessem algum poder nos nossos atuais mercados, muita coisa e quase tudo o que estamos hoje fazendo, elas nos proibiriam de fazer. E mais um detalhe: As forças do mercado são mais cegas ainda para um aspecto ainda mais importante: a criação, ou seja, o grande complexo da evolução orgânica neste planeta. Quando um fazendeiro brasileiro, um poderoso brasileiro derruba dez mil hectares de Floresta Amazônica ou de Cerrado e gasta dinheiro para destruí-la, então, na cabeça dele, aquele fantástico ecossistema, aquele incrível complexo de vida tem valor negativo.

Ele gasta para se ver livre dele. Ele considera aquilo um empecilho. Agora, para as criaturas que alí vivem, para aquela rãzinha lá em cima naquela orquídea, para o macaquinho, para todos aqueles seres vivos, aquilo tem valor infinito. E, na realidade, tem valor infinito para nós, porque, se nós destruírmos os sistemas de suporte de vida, a nossa vida também vai desaparecer. É apenas uma questão de tempo. Portanto, precisamos realmente repensar, não somente aqueles postulados básicos do nosso pensamento econômico. Temos que repensar o funcionamento de nossos mercados. Não quer dizer que devamos abandonar as forças do mercado. Não. Mas temos que complementá-las de tal maneira que elas representem, que elas reflitam, reais fatos de sobrevivência e de justiça social.

Para a maioria das pessoas, tudo quanto é tecnologia nova é, simplesmente, resultado do progresso, do desenvolvimento da mente humana. Se nos apresentam algo como a lata de alumínio para cerveja, então, isto é progresso. Ninguém pensa no real custo. E, de fato, aqueles que nos apresentam essas coisas têm interesse em que aceitemos tudo o que nos propõem como um progresso implacável. Tentam fixar em nossas cabeças o dogma de que a ciência seria fria, neutra, de que a ciência nada tem a ver com ética, com moral, com política. Por outro lado, na cabeça da maioria das pessoas, ciência e tecnologia são tidas quase como sinônimos, ou como sinônimos mesmo. Vejam, temos Ministério de Ciência e Tecnologia. A maioria dos países têm Ciência e Tecnologia sempre juntos. Não conheço nenhum que separe Ciência de Tecnologia. Entretanto, Ciência, sim, é uma coisa limpa.

A Ciência não é fria tampouco. A Ciência é a contemplação, diria eu, da divina beleza do Universo. A Ciência, mantém um diálogo limpo com o universo. Na Ciência, não existe trapaça, não existe mentira. Se alguém pretende ser cientista, mas mente, faz trapaça, logra, ninguém precisa expulsá-lo de nenhum clube; por definição, ele não é cientista. Entretanto, a Tecnologia está cheia de logros, de trapaças e de mentiras. Nem preciso entrar em detalhes. Vejam só o tipo de publicidade que se faz hoje, ou vejam um carro particular. Acaso, o carro particular assim como nós o usamos, e aqui temos estes monstros de duas toneladas é solução tecnologicamente racional para o transporte de massas? Façam uma experiência mental muito simples:

Perguntem a um executivo de uma grande fábrica se ele compraria uma máquina, uma máquina altamente sofisticada, muito cara, muito vulnerável e de pouca duração, já planejada para não durar muito tempo, uma máquina que passaria 90, 95% do tempo parada, estorvando exatamente aquilo que ela deveria estar resolvendo. Ele vai dizer que não mesmo, que ele quer uma máquina que trabalhe pelo menos 16 horas por dia, se possível, 24 horas por dia, e que dure o máximo de tempo. Nós poderíamos ter soluções bem diferentes. Mas, assim como o automóvel é hoje, ele interessa às fábricas de automóvel. E, por isso, eles têm que nos impor o carro não como solução técnica racional, mas como “status”. Mas, desde quando o meu status depende de mil quilos de ferragens, plásticos, vidros e borrachas. O meu “status” está aqui (aponta para a testa). Então, observem com atenção as tecnologias que hoje predominam, especialmente na agricultura. A agricultura moderna que se diz tão eficiente que, conforme argumentam – sou agrônomo e conheço muito bem a questão -, seria tão eficiente que num país como este, ou na Alemanha, ou na Inglaterra, 2% da população conseguiria alimentar a população inteira, enquanto que, quando predominava uma agricultura camponesa, como existia, por exemplo, ainda na Alemanha, na França até o começo da Segunda Guerra Mundial, 40% da população trabalhava no campo. Ora, esta comparação não procede.

O velho agricultor, tradicional camponês, em termos econômicos, se olharmos a sistêmica da economia como um todo, era um esquema autárquico de produção e de distribuição de alimentos. Ele produzia seus próprios insumos e praticamente entregava os seus produtos na mão do consumidor nos mercados semanais. Aliás, na nossa língua, em português, não dizemos “lunes, martes, miércoles”, dizemos, “segunda, terça, quarta-feira”, eram os dias de mercado, quando o agricultor entregava os seus produtos praticamente na mão do consumidor. Mas o que é o agricultor moderno? Ele é um simples tratorista, um espalhador de adubos e de venenos. Ele é parte, é um apêndice apenas de uma gigantesca infra-estrutura tecno-burocrática. Quando o economista moderno se vê confrontado com a fábrica de adubos químicos ou de agrotóxicos ele diz que é indústria química, mas isto é agricultura; isto é a agricultura moderna. Tem que entrar nesta conta.

Quando está diante da fábrica de tratores e combinadas, ele diz que é indústria de máquinas, mas isto é agricultura. A pessoa que passa o dia diante do computador, mexendo com as apólices dos créditos dos agricultores, se diz técnico em informática, mas, na realidade, está no negócio de produção e de distribuição de alimentos. Temos que fazer contas completas e reais. Se fizerem essa conta, verão que também numa economia como nesta aqui, como na economia alemã, francesa, e lá no sul do Brasil também, não é verdade que 2% da população alimenta os outros 98%. Temos que somar, isso sim, as horas de trabalho, direta ou indiretamente ligadas ao processo. Vejamos outro exemplo de como, o que nos é apresentado em nome do “progresso” não é necessariamente socialmente e ecologicamente desejável: Há o caso da indústria de compotas.

Anos atrás, milhares de pobres mulheres descascavam frutos à mão. Apareceu um novo invento. Do ponto de vista da técnica, este invento era progresso, porque ele significava uma diminuição enorme na mão-de-obra. Passaram a descascar os frutos quimicamente. O fruto vem por uma transportadora, cai num banho de soda cáustica e sai descascado. O segredo está em não deixar muito tempo, senão, não sobra nem caroço. Do ponto de vista do aumento de eficiência, é progresso fantástico. Mas, socialmente, o que significou? Do dia para a noite, milhares de pobres pessoas que realmente precisavam daqueles empregos, apesar de mal pagos e sazonais, viram-se despedidas. Um país onde não havia, naquela época, nem sequer compensação de desemprego. Mais um desastre: Enquanto descascavam a fruta à mão, o riozinho ao lado da fábrica estava limpo, tinha muito peixe.

Quando se passou a descascar quimicamente, a água se transformou numa cloaca com sobrecarga orgânica. Aquelas pobres pessoas, além de perderem o emprego, perderam o peixe. Mais um detalhe: Enquanto se descascavam frutos à mão, sobravam algumas milhares de toneladas de casca por ano e havia gente criando porcos com isso. Eles também perderam o seu modo de vida! Então, que progresso foi esse? Foi progresso só para as fábricas; para o povo, foi um desastre. Temos de nos perguntar: Será que esse tipo de decisão deve ser tomado isoladamente pelo executivo da empresa ou essa decisão deveria ser tomada na Câmara de Vereadores, com o voto dos pescadores, com o voto dos criadores de porco e com o voto das mulheres que perderiam o emprego? A decisão seria bem diferente. Mas, como ninguém entende de técnica, a maioria das pessoas não enxerga esses problemas.

Então, também não se discute politicamente. Já se viu um político nosso ou em qualquer país discutir tecnologia? Só em raros casos, onde se vê perigos, como na energia nuclear. Procurem informar-se sobre o que fazemos hoje na produção em massa de animais. Por exemplo, nos campos de concentração de galinhas, nas fábricas de ovos, nos calabouços de porcos – dou o nome certo, de propósito, não gosto de eufemismos para coisas feias. Se fizerem a conta certa, vão ver que ali não produzimos nada. Se destrói mais alimento do que se produz, mas se concentra poder para grandes empresas, grandes matadouros que, ao mesmo tempo, produzem a ração, produzem os pintos, etc.

Precisamos repensar nossa própria civilização. O que é “progresso”, o que é desenvolvimento! Sr. Coordenador – Não vamos poder atender a todas as perguntas, mas faremos o possível. Temos três perguntas que podem ser reunidas, formuladas por Valdecir Antônio Simão, do Paraná, Brasil: “Qual a sua esperança em relação ao Brasil? Será que podemos reverter a situação ou o nosso destino é desaparecer? Será que irá acontecer uma catástrofe para depois nos conscientizarmos da mudança?” E a de José Dalmo, do Sindicato de Administradores de Belo Horizonte: “A população está crescendo, se não derrubarmos o cerrado e algumas florestas, como aumentar a produção alimentícia para atender a demanda e não deixar o nosso povo morrer de fome?” E uma terceira assinada pelos universitários do Brasil: “O senhor afirma que as universidades formam técnicos imbecis; como futuros técnicos imbecis, gostaríamos de ouvir a sua opinião de como mudar esse quadro e nos tornarnos técnicos sábios?”

Prof. José Lutzenberger – São três: “Qual a sua esperança em relação ao Brasil?” Se eu não tivesse grande esperança em relação ao Brasil, não estaria aqui agora. Estaria em alguma praia, queimando a barriga ao sol. Acho que há esperança, há muita esperança. Estou há 25 anos nessa briga, sempre fazendo sacrifício pessoal e deixando para trás os meus empreendimentos, justamente para contribuir para uma nova conscientização. O Brasil, apesar de todos estragos que já foram feitos, e continuam sendo feitos, tem uma vantagem: temos ainda muito espaço. Ainda podemos reverter muita coisa. Se algum de vocês quiser ver tendências contrárias, venham visitar-nos no Rio Grande do Sul.

Lá, podemos mostrar esquemas florestais sustentáveis e de valor ecológico fantástico com toda a biodiversidade preservada e melhorada. Posso mostrar trabalhos das minhas empresas que são trabalhos ecológicos de reciclagem, de tecnologias brandas. Temos chance, mas temos de repensar as coisas muito rapidamente. Na Holanda, por exemplo, mais de 20% do território nacional já está coberto de casas ou de pavimentos. Quanto crescimento ainda é possível? 20, 40, 80%? E o crescimento econômico que temos hoje duplica a cada 30 anos ou mais.

No Brasil, felizmente, ainda temos muito espaço, podemos fazer muita coisa. Falando aos jovens, podemos dar trabalhos fantasticamente fascinantes e interessantes a milhões de jovens, se partirmos para essa nova filosofia. Podemos arrumar trabalho lá na Amazônia, fazendo riqueza, não demolindo riqueza. Aqueles 400.000 quilômetros quadrados que já estão demolidos, podemos ajudar a recuperá-los e a fazer riqueza real. Portanto temos esperança, sim.

Não quero que vocês me entendam mal. Quando eu levanto essas questões todas não é por pessimismo, é por otimismo, porque se eu não fosse otimista, como eu disse, eu não estaria aqui. “A população está crescendo, se não derrubarmos os cerrados e algumas florestas como vamos aumentar a produção alimentícia para atender o nosso povo e não morrer de fome?” Bem, isso é uma visão imediatista. É como dizer: eu estou vivendo uma vida orgiástica, estou consumindo o meu capital, então, vamos consumir mais ligeiro ainda. E o dia da verdade, como é que vai ser? E ele está muito próximo. O que nós temos de fazer é partir para uma produção agrícola realmente sustentável e mais produtiva.

Se eu agora estivesse falando para agrônomos, eu poderia fazer uma palestra de cinco horas só sobre o absurdo da nossa atual forma agrícola. Na realidade, esta agricultura moderna produz menos, em questão de mão-de-obra, menos em questão de quilos por hectare, e, sobretudo, ela não é sustentável. Observem as nossas grandes lavouras de soja, lá no Rio Grande do Sul, que, aliás, não estão aí para alimentar brasileiro faminto. Nós derrubamos toda a floresta subtropical úmida do vale do Uruguai para plantar soja. Soja, para quê? E agora estamos derrubando cerrado para plantar soja. Acaso é para alimentar brasileiro faminto? Não! É para alimentar vaca gorda no Mercado Comum, ou porcos.

No norte da Alemanha, por exemplo, se criam porcos, se engorda porco com soja brasileira, que viajou, primeiro, mil quilômetros de caminhão no Brasil, depois 12.000 Km de barco, depois mais centenas de quilômetros de caminhão. Produzem porco no norte da Alemanha, matam o porco, mandam as metades 1.500 km para o sul até Nápoles, atravessando os Alpes para fazer salame italiano. Depois, este salame italiano volta para o norte da Alemanha. Tem cabimento esta coisa? É cada vez mais energia gasta absurdamente. Poderia contar a vocês centenas de casos semelhantes. Então, não é questão de derrubar mais. O que nós já derrubamos, já é amplamente suficiente. Não tem povo no mundo que tenha tanta área derrubada como nós.

Como é que os alemães, num território que hoje, com a Alemanha reunificada, corresponde mais ou menos ao Rio Grande do Sul com Santa Catarina juntos, poderiam, se quisessem, se alimentar da agricultura que têm? E mantêm 40% do território em floresta! E nós, no Rio Grande do Sul, temos 1% de floresta! Tínhamos 40%, derrubamos o resto todo! Então, não é questão de derrubar mais. É questão de fazer uma agricultura mais inteligente. “O senhor afirma que as universidades formam técnicos imbecis”. Infelizmente é isso. “Como futuros técnicos imbecis, gostaríamos de ouvir a sua opinião de como mudar este quadro”. E aí eu faço um apelo: Se vocês quiserem ser realmente revolucionários, no verdadeiro sentido da palavra, não é sendo esquerdista ou direitista ou todas estas ideologias que não têm sentido mais.

Vocês precisam ampliar o seu horizonte científico, técnico e, sobretudo, ético. E alguns vão dizer: “mas como”? Os conhecimentos humanos hoje são tantos, tantos, o acervo de conhecimento que nós temos é tão fantástico que ninguém mais tem condições sequer de conhecer bem a sua própria especialidade. Em parte, é verdade; em parte, não é. Se vocês aprenderem a ver em cada disciplina aquilo que é fundamental, aquilo que é princípio básico, então, não precisam perder tempo com detalhes particulares. E é possível. Eu fiz este esforço durante toda a minha vida. Eu consigo conversar com físicos nucleares, físicos de partículas, com químicos, com agrônomos, com biólogos, e com teólogos também. É possível e não significa trabalho duro. Muito ao contrário, não há coisa mais fantástica, mais gostosa do que acompanhar as grandes aventuras do espírito humano. Só o que aconteceu neste último século, com a física relativista, o trabalho de Einstein, que completou a física clássica, depois, a genética, a geologia moderna, a genética moderna, a cosmologia, o que nós conhecemos hoje em biologia molecular…!

Estamos desvendando os grandes segredos deste fantástico processo que destingue este planeta dos demais, que são todos planetas mortos, que estão mortos como este copo, que aliás, é resultado da vida, porque isto aqui não existia antes. Acompanhar e se orientar dentro desta fantástica aventura do espírito humano só dá prazer. É o maior prazer que se possa imaginar. Não tem prazer maior do que esse. E, infelizmente, a nossa juventude e a maioria das pessoas não se dá conta.

No momento em que vocês procurarem entender o que nós humanos já sabemos hoje desta maravilha e deste grande mistério, um mistério cada vez maior que é o universo, vocês não vão mais perder tempo com futilidades. Hoje, o jovem perde tempo, discutindo futebol, com tanta coisa interessante e fascinante. Então esse é o meu apelo: Procurem ampliar o seu horizonte técnico, científico, e, sobretudo ético. Nós temos que fechar este tremendo precipício que existe hoje em nossa cultura: de um lado, as Ciências Naturais e, de outro lado, as Humanidades. Hoje, na ciência e na tecnologia, já temos uma divisão horrível. Por exemplo, na minha profissão, o técnico em questões físicas de solo já não conversa com o técnico em química de solo, muito menos com o técnico de microbiologia, que, por sua vez, não conversa com o fitopatologista, e assim por diante. Quando tomam um “chopp” junto falam em futebol ou outras futilidades.

Do lado das ciências ditas humanas, entre os teólogos é a mesma coisa. Se vocês escutarem discussões entre os teólogos, eles já não tem mais linguagem unificada tampouco. E entre essas duas há um precipício intransponível. Por um lado, os teólogos, às vezes, tendo até orgulho de não conhecer Ciências Naturais, acabam dizendo coisas irrelevantes. Por outro lado, os cientistas perdem todo o respeito pela Filosofia. Não tem mais conversa.

Fundamentalmente, e vou terminar aqui com o meu apelo à juventude e aos adultos também. Eu, com 69 anos, não tenho coisa que eu mais goste de ler do que ciência. E tudo o que acontece de novo me interessa, e é fascinante. Procurem ampliar o horizonte científico, técnico e filosófico, ético. Isto é possível e isto só dá prazer.

Muito obrigado.

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