Lutas e paixão despontam um primeiro olhar sobre a Natureza

No início a Terra tinha todas as suas belezas intactas. Mudanças e transformações de qualquer espécie ocorriam sempre de forma natural. O Homem não tinha o direito de influir.

De definir os rumos e impedir o fenômeno da vida.

Mais adiante, em nome do progresso e crescimento deliberados, catástrofes e mortes de várias espécies de vida começaram a ocorrer.

Como um pedido de socorro vindo da própria Terra, homens com sensibilidade aguçada e conhecimentos científicos suficientes sobre o saber biológico começaram a fundar organizações em defesa do meio ambiente.

Entre os primeiros grupos e ações constam:

– As circunstâncias da fundação da Associação Gaúcha de Proteção Ambiental (Agapan).
– A mobilização das ecofeministas em plena ditadura militar, contando com a proteção da polícia.
– O protesto simbólico do estudante Carlos Dayrell, que subiu em uma árvore da João Pessoa para evitar seu corte.
– Documentos importantes na formação do movimento ambientalista, como a Ata da primeira reunião da Comissão Verde e a Lei dos Agrotóxicos.

Entrevista com o professor Kurt Schmeling

MR – Como começou seu envolvimento com a Ecologia ?
Schmeling – O interesse vem da juventude. Quando estudante, fiz um trabalho escolar sobre a “lojinha do Roessler” que na semana da Pátria de 1938 conclamava, na sua vitrine, aos patriotas que defendessem seu maior patrimônio que era a natureza.

Era tempo em que ainda não se falava de ecologia como hoje. Mais tarde, quando já era diretor da Fundação Evangélica, convidei o Henrique Roessler para nos ajudar no reflorestamento do morro da Fundação e no plantio de ipês de acesso à escola. Ele veio várias vezes, sempre impressionando por seu empenho e altruísmo.

Na década de 60 começou a se ter mais informação sobre o tema, também a obra do grande humanista Albert Schweitzer me impressionou com sua ética de reverência à vida.

No colégio Sinodal fazíamos muitas saídas de campo e com o contato com a natureza surgiu a vontade de protegê-la. Mais tarde surgiu a AGAPAN, onde ia muito em suas reuniões. Em 1973 organizei uma exposição sobre Henrique Roessler e ecologia numa atividade de final de ano. Então o novo diretor, professor Sarlet, propôs que eu começasse a dar aula de ecologia.

MR – Como surgiu o Movimento Roessler ?
Schmeling – Começou com o caso do Hermenegildo. Vários dos meus alunos e outros estudantes participaram da coleta de assinaturas exigindo a solução do desastre ambiental. Ao mesmo tempo, eles tiveram a tarefa de estudar a importância das áreas verdes previstas no plano diretor da cidade. Essa turma liderada por Cristine Beck, Hans Thomas Goetz, José Roberto Silveira (o Bolota), Maria Cristina Fedrizzi (a Tina), Nílvia Heidrich e Cristine Weissheimer, propuseram uma reunião para formar um grupo de ecologistas. A esta turma me somei junto com Dedé Ferlauto, Sérgio Rolim e Carlos Mossmann. A primeira reunião foi em 16 de junho de 1978 lá na Fundação. Já em 10 de julho de 1978 fomos ao Jornal NH lançar a idéia para a cidade.

MR – Como surgiu o nome da entidade ?
Schmeling – Nessa primeira reunião cheguei pensando em propor o nome do Roessler, mas o Dedé que andou estudando o trabalho dele foi mais rápido e propôs primeiro, o que me deixou bem satisfeito.

Entrevista com José Otávio Ferlauto – O primeiro presidente de nossa entidade

MR – Como começou seu envolvimento com a Ecologia ?
JOF – Lá por 1969, como hippie, despertei para o ecologismo. Desprezávamos a sociedade de consumo, buscando outros valores. Logo participava de reuniões da AGAPAN, mas não me filiei à entidade. Em 1978, com 26 outros interessados, fundamos a Cooperativa Coolméia.

MR – Como surgiu o Movimento Roessler ?
JOF – Com a tragédia do Hermenegildo – a morte de milhares de formas de vida no litoral sul no outono de 1978 – procurei Magda Renner, líder da ADFG, que organizava um abaixo-assinado exigindo esclarecimento do caso. Vivia, nesta época, em Sapiranga.

Foi o Carlos Mosmann quem fez a ponte com a Tina Fedrizzi, que junto com colegas da Fundação Evangélica, estava comprometida com a luta, alunas que eram do professor Schmeling. Juntos, ainda: Flávio Rolim, Luís Morassuti, Jane Schmitt, Evânia Reichert e outros.

Instalamos uma banquinha de coleta de assinaturas durante a FENAC. O cartaz produzido pela ADFG trazia uma foto onde aparecia, em primeiro plano, o cadáver sem cabeça de um preso político uruguaio, que fora encontrado na praia. Os ditadores, na época, inauguravam a feira de calçados e os seguranças chegaram arrancando os cartazes, deixando as gurias assustadas, mas a coleta continuou. Foram tantas as assinaturas no Vale que o pessoal da ADFG veio a Novo Hamburgo buscar os pacotes. Numa fala breve, a Magda disse que nós tínhamos por perto o importante exemplo de Henrique Luiz Roessler – o que me inspirou a sugerir o nome da entidade, no momento oportuno. Optamos pela criação de um movimento – não associação ou algo assim, pois nascera da ação de algumas pessoas, com o apoio fundamental de algumas pessoas como a Evânia (Jornal NH), a Jane (Jornal do Comércio), um colega solidário (João Maroni – Zero Hora) e mais a sucursal da Caldas Júnior no Vale. O que a gente fazia, repercutia.

Lutamos contra a fábrica de vidro Cisper, de Campo Bom, mas só conseguimos fazer barulho, por falta de assessoramento. Depois brigamos com a Bolognesi Engenharia, que se instalara ilegalmente numa área de preservação e aí tivemos o apoio do já militante e então advogado, Swami Anand Ananta (Newton Alano): embargamos a obra; quando resolveram patrolar a Praça da Bandeira para criar ali um largo de manifestações cívicas , revertemos o quadro numa ação tipicamente hippie: reunimos os companheiros aos nossos filhos para semear girassóis na terra revolvida pelas máquinas.

O apoio da imprensa foi fundamental mas nós tivemos, desde o início, o cuidado de criar nosso próprio veículo de comunicação, batizado pelo Mosmann, de Pé na Terra, de curta vida.

Quando da formalização da entidade lancei os nomes da Jane e do Morassutti, mas acabei encabeçando, por decisão coletiva, as três chapas concorrentes. Venceu a que tinha Morassutti como vice. Renunciei semanas depois e ele teve que assumir a função – eu era um desviante militante naquela época. Tempos depois voltei a viver em Porto Alegre e permaneceram apenas os laços afetivos com o Movimento, mas a luta continua, em outras frentes.

Entrevista com Débora Sarmento

Débora Sarmento teve grande participação no Movimento Roessler lá pelo ano de 1986. Foi Secretária Executiva do Movimento pelo período de dois anos.

MR – Em que situação se encontrava o Movimento Roessler quando tu começaste a participar ?
DS – Era um período riquíssimo de mobilizações. As pessoas se sentiam comprometidas com a causa e, de fato, participavam.

Foi um momento muito fértil para o Mov. Roessler, pois estávamos na luta pela efetivação do Parcão; houve a mobilização artística no centro da cidade com a pintura das paredes do calçadão, fato que chamou a atenção de um grande público; havia a questão da preservação da reserva do banhado de Lomba Grande; ocorreu também a atuação de vários curtumes da região em função de um decreto trágico sobre a morte do Rio dos Sinos, divulgado pela FEPAM, enfim foram várias atividades da época.

Outro fator importante foi a reestruturação do Movimento com uma sede em Hamburgo velho e com a participação de muitas pessoas nas reuniões. O envolvimento com o público no geral se dava de uma outra forma, todos participavam mesmo e a mídia nos dava mais espaço. Inclusive, isto é algo que senti que acabou depois da ECO 92, pois houve uma saturação por parte da mídia com a questão ecológica.

MR – No meio de todas as mobilizações da época, já que falaste sobre a sede do Mov. Roessler lá em Hamburgo Velho, lembrei da história do “Hamburgerberg Fest”. Comente sobre a atuação da nossa entidade:
DS – Isto é uma coisa que as pessoas acabaram esquecendo, mas é muito importante lembrar que a primeira chamada para que houvesse reuniões mobilizações em cima de um fato que iria descaracterizar Hamburgo Velho, ou seja, a construção do Swan Tower, foi efetuada por mim e que mais tarde, assumida pela Silvana Londero, deu abertura para a criação de outro grupo: Os Amigos de Hamburgo Velho.

A idéia era não ir contra algo que não havia como ir, mas sim positivar a região – mostrar o lado bom que ainda se fazia presente. Para tanto, fiz frente em chamar as pessoas da região, escolas e entidades locais para participar de um evento que acabou sendo a 1ª Hamburgerberg Fest.
Sem dúvida foi algo muito positivo para a população, região e para o Mov. Roessler, que mais uma vez mobilizou atenções para aquilo que acontecia na cidade.”

MR – Falando em conseguir “mobilizar atenções”, esta é uma característica própria da nossa entidade ou há outra caracterização mais forte a teu ver ?
DS – A característica fundamental do Roessler é o trabalho grupal, a possibilidade de discutir alternativas e buscar apoio junto a outras entidades.

O que percebo hoje, inclusive lendo o jornal da nossa cidade, é que através do trabalho deste grupo a população começou a ter opinião crítica quanto a natureza, seja pela questão do lixo, das podas, etc. Isto é a algo que resulta do trabalho sério desenvolvido pelo Mov. Roessler. Tipo, o que se consegue com a conscientização das pessoas, nenhum governo e ninguém vai tirar de nós. Mesmo que leve muito tempo para se obter resultados, e que estes se dão de forma lenta – quase imperceptível – o melhor desempenho é este mesmo. Por mais que as pessoas queiram heróis ecológicos, estas tarefas que o Mov. Roessler tem realizado – nos bastidores – conseguem atingir a comunidade.

E isto é o mais importante, parabéns!

Entrevista com Magda Renner

Magda Renner, presidente da Amigos da Terra (ADFG), foi uma espécie de madrinha do Movimento Roessler em função de ter liderado a “Operação Hermenegildo” que resultou na formação do grupo fundador da nossa entidade em 1978. Também foi a primeira palestrante convidada no primeiro evento público da entidade. A Ação Democrática Feminina Gaúcha – Amigos da Terra é uma das ONGs mais importantes do Brasil e do mundo graças ao seu profundo trabalho político em várias esferas da questão ambiental.

MR – Como foi que você se envolveu com a questão ecológica ?
Magda – Sempre fui alucinada pela Natureza. Meu esporte era a equitação por trilhas nas florestas. O que me levou a ter muito contato com ela e gradativamente ir percebendo a sua degradação – o que me doía muito e me pedia uma ação. Em 1972 a AGAPAN começou a se tornar popular e houve a Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente. Isto foi me atraindo para a questão política da ecologia. No começo me interessei por livros sobre o tema. Um deles, muito importante, foi o de Jean Dorst – ” Antes que a Natureza Morra” que tinha frases belíssimas e marcantes que entravam no coração da gente com profundidade. Para você ter uma idéia, ele se referia aos banhados como “a juventude da terra” por serem grandes criadouros naturais. Depois veio a “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson e os livros de Odum. Comecei a buscar contato fora também com os Amigos da Terra eo World Watch Institute que nos forneceram muitas informações e ajudaram a ver que esta era uma questão que devia ter um tratamento político e que iria crescer muito. A ADFG tinha atividades que privilegiavam a participação feminina sem a qual, no nosso entendimento, não teríamos movimento ecológico. Estes fatos fizeram com que a gente procurasse a AGAPAN. Assistimos uma palestra do Lutzenberger sobre os quatro princípios básicos da Ecologia. Foi como se quatro janelas de minha casa se abrissem para o mundo. Depois disto nunca mais vi a vida do mesmo modo. Ouvir que num espaço limitado de planeta só é possível um determinado limite de crescimento; que a natureza n*atilde;o produz lixo pois os detritos de um ser vivo são alimento para outro, ou ainda que todos os ecossistemas são auto-sustentáveis e auto-reguláveis e que a natureza não é um aglomerado de seres vivos e objetos mortos mas um arranjo sofisticado e sinfônico em que cada um tem seu lugar e função, foi uma revolução no modo de encarar o mundo. Logo ficamos amigas do “Lutz” e começamos a ajudar a encontrar espaço no cenário político do país e do mundo para a questão.

MR – Conte-nos um pouco mais sobre a questão do Hermenegildo já que ela foi tão importante para este processo de conscientização ecológica.
Magda – Em 13 de abril de 1971 o barco Taquari encalhou na ilha Rasa perto de Hermenegildo na costa gaúcha e lá ficou ao mar uma carga tão tóxica quanto misteriosa. O seguro da carga era alto. Isto somado a omissão das autoridades permitiu que produtos químicos perigosos guardados em “Tambores Vermelhos”, como dizia a sua fabricante – a Dow Chemical, ficassem tanto tempo lá ameaçando o meio ambiente. Em seguida se espalhou por mais de 500 Km de costa um gás tóxico que primeiro matou animais marinhos pequenos e depois chegou até a matar animais domésticos de porte e provocar tosse forte e dores de cabeça nos moradores das praias. Isto levou a denúncias na imprensa e fez com que fosse lançada a “Operação Hermenegildo” pelo movimento ecológico.

Queríamos que o governo do presidente Geisel (que depois virou funcionário da Dow Chemical) esclarecesse os fatos, processasse os responsáveis e tomasse medidas para prevenir futuros acidentes semelhantes. Mobilizamos o país e isto começou a repercutir internacionalmente. A resposta oficial é de que se tratava de um fenômeno natural de multiplicaçatilde;o de algas que lançam gases tóxicos no ambiente chamada “maré vermelha”. Mas nunca um fenômeno destes alcançou tal dimensão no mundo segundo uma equipe de pesquisadores suíços que investigou ocaso. Nossa conclusão é de que foi uma maré vermelha mas muito intensificada pelos produtos tóxicos do navio que geraram um forte desequilíbrio ambiental permitindo a explosão populacional das algas. Mas o fato é que isto mobilizou ministros, cientistas e populaçatilde;o de uma forma tal que a questão ecológica se popularizo muito. Prova disso foi a maciça adesão ao abaixo-assinado lançado em 13 de maio de 1978 na Assembléia Legislativa. Foi neste ato que conheci os jovens de Novo Hamburgo que depois fundaram a entidade de vocês.

MR – E hoje em dia, como vês a questão ecológica ?
Magda – Do lado dos governos a coisa continua muito triste pois eles são verdadeiros analfabetos ecológicos, vaidosos que só enxergam a si mesmos e tem da natureza uma visão mecanicista. O governo de FHC, por exemplo, tem um política tão danosa ao meio ambiente quanto os governos militares. Mas sem a desculpa de não poder ignorar os fatos a respeito depois da conscientização mundial provocada pela ECO 92.

O próprio movimento passa por uma fase difícil. Nosso inimigos se adonaram do vocabulário ecológico e de algumas propostas que lançamos quando estas interessam a seus objetivos privados. Muitas lideranças passaram a trabalhar para o governo ou empresas na ilusão de poder influir por dentro do sistema quando se sabe que nestes casos só nos enchem de trabalho e depois não implementam quase nada do que dizemos. Tive uma experiência no Banco mundial neste sentido em que eles só diziam que nossas idéias eram luminares mas continuavam com a velha prática. Some-se a isto a crise econômica que tirou muito do tempo das pessoas de participar e veremos que a “coisa tá feia”.

A nossa grande satisfação é que tenhamos conseguido transmitir uma visão ecológica de nosso mundo para as novas gerações e ver que de 20 anos depois elas ainda estão na memória e na prática de muita gente como vocês aí do Movimento Roessler.