Florianópolis e o ‘colonialismo cultural’: disque-cabungo

por Ana Echevenguá

Temporada de verão: a capital catarinense está cheia de turistas. Quem desconhece os nossos problemas, compra a propaganda midiática de que aqui é o paraíso e decide gastar seus tostões nas nossas praias.

Mas a ilusão do paraíso está com os dias contados.

O ‘catarina’ – que vive do turismo – como na fábula da cigarra e da formiga, hiberna nos períodos mais frios e sai da toca na temporada de verão.

Da noite pro dia hotéis, pousadas e restaurantes reabrem as suas portas; vendedores ambulantes reaparecem; o preço das mercadorias é majorado (arrancando dinheiro do bolso do turista e do nativo); os engarrafamentos no trânsito aumentam; as ruas ficam cheias de ônibus de excursão que estacionam para despejar/recolher os passageiros-turistas e, nesse meio tempo, lançam no ar fumaça do diesel queimado e o barulho dos motores ligados; um policial salva-vidas é artigo de luxo nas areias das praias; a segurança nas ruas é pífia…

Como a população dobra, triplica na temporada, aumenta a produção de dejetos. O recolhimento do lixo passa a ser diário porque lixo é dinheiro. E o esgoto?

A temporada virou sinônimo de esgoto vazando dos prédios, escorrendo pelas calçadas; situação que é amenizada pelos ‘limpa-fossa’ – que recolhem esgoto e o joga sabe Deus aonde!

É simples: a gente liga pro disque-cabungo e entram em cena os cabungueiros!

Bom, o problema do esgoto atinge toda Santa Catarina que, segundo o Diário Catarinense, “investe pesado em propaganda turística ressaltando as suas belezas naturais, mas esconde uma realidade vergonhosa: o baixo índice de tratamento de esgoto nas principais cidades que recebem esses visitantes”**.

Quem é pago aqui para prestar esse serviço? A CASAN – Cia. Catarinense de Águas e Saneamento. Mas ela age como se esgoto não fosse encargo dela. Seu negócio é água. Na véspera do Natal, ao admitir falta d’água (fato corriqueiro na temporada), lançou a campanha “Guerra ao desperdício”. Multas de R$ 5 mil para quem for flagrado lavando calçadas ou veículos; acréscimo da tarifa para quem consumir 25% a mais da quantidade média do ano (isso é a tal da tarifa sazonal).

Claro que a CASAN não assumiria a culpa pela falta d’água! Para o seu presidente – Walmor De Luca – a culpa é do volume de turistas e do “alto consumo sem inteligência e racionalidade da população”. Segundo ele, “vivemos ainda um colonialismo cultural: as pessoas ainda cantam ópera no chuveiro durante o banho”*.

Pensando bem, Seu Walmor tá certo! Não passamos de “colonizados”! Não temos coragem de dizer não à exigência do pagamento de um serviço que não recebemos, cujo valor corresponde a 100% sobre o valor da tarifa d’água. Florianópolis tem 45,14% de atendimento de esgoto. Só isso! Dados obtidos na pesquisa da Fundação Getúlio Vargas sobre o índice de serviços de esgoto em 24 destinos turísticos indicados pela Embratur.

Este ‘atendimento de esgoto’ prestado pela CASAN é assim: o negócio cai na rede; vai pruma estação de tratamento; não sabemos se é tratado.
E os “colonizados” preferem lançar seu esgoto nos rios, no mar… Quando este lançamento apresenta problemas e a coisa vem à tona, pagam os cabungueiros pra levarem seus dejetos pra qualquer canto, longe dos seus olhos e nariz.

Assim, a ‘Colônia’ vai destruindo seus recursos naturais que tanto atraem o turista; matando a galinha dos ovos de ouro.

Não dá mais pra esconder que o esgoto in natura afeta a balneabilidade das nossas praias. O último relatório do governo apontou que, em Florianópolis, dos 63 pontos analisados sobre a qualidade da água, 24 (38%) são impróprios para banho***.

Relatório do governo?; da FATMA?, órgão estadual ambiental conhecido por não cumprir suas obrigações. Dá pra confiar??

Claro que não! Segundo o doutor Fernando Cordioli Garcia, “se alguma instituição séria fizer uma pesquisa independentemente do Governo, há o sério risco de um quadro muito pior ser retratado, ainda que utilizados os mesmo critérios benévolos do CONAMA nas análises”.

Ana Echevenguá é advogada ambientalista, presidente da ONG Ambiental Acqua Bios, da Academia Livre das Águas e coordenadora do programa Eco&Ação – www.ecoeacao.com.br – fones 48 88133380/91343713 – Florianópolis – SC.

Comment(1)

  1. Joel Robinson says

    É isso ai minha amiga.
    O maior cupado é o proprio povo, luxento e exibido.
    Mas quando vão a Europa ou Estados Unidos onde tem multa por espalhar porcaria ai acham bonito.
    Este quadro que voce relata é o mesmo aqui na Lagoa dos Patos, no litoral gaucho, e nos rios.
    O obrasil tem muitos orgãos, entidades, Ongs, pseudo ambientalistas de internet, secretarios de meio ambiente fisiologicos que não servem para nada, é só conversa para aparecer na midia.
    Enquanto não comecarmos atraves do ministerio publico acionar os responsaveis o quadro que voce descreve não mudara.
    Best regards
    Eng. Joel Robinson
    Novo Hamburgo-RS

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