Do suceder das estações

“Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo.”

(Walter Franco)

Quantas vezes a gente, no corre-corre louco de nossas vidas, não se sente desesperado e cansado. Momentos em que nada parece ter sentido, tudo parece se voltar contra nós, contra nossos anseios, sonhos e projetos mais puros. As condições de vida muitas vezes são amargas e adversas. A frieza nas relações entre as pessoas. A luta cega pelo poder e pela grana. Porrada por todos os lados A gente sempre em estado de guerra. Tendo que ser forte quando no fundo estamos loucos pra sermos fracos. Carentes de amor, carinho, amizade e coisas sinceras. Tudo destituído do menor sentimento. Guerra, fome, injustiças. Coisas revoltantes. E nem sequer a revolta nos sacode. Só um grande desânimo se faz presente. Uma falta enorme de não sei o quê. Uma vontade de que tudo fosse diferente. Só que não temos a mínima ideia por onde começar. Toda ação possível se revela pequena. Uma gota de pureza num oceano de atropelos, sujeira e agressão a todas as formas de existência. Uma dor forte e insuportável na cabeça.

São situações que nos colocam frente a frente com nossos limites pessoais.

Na verdade, momentos de desafio. Um convite para uma reflexão profunda. Momentos de resistir à tentação de renunciar aos ideais sob a desculpa de que não adianta nada mesmo. Cuidado! Na verdade, admitir esta idéia é um subterfúgio da nossa mente para abdicarmos de nossos valores mais fortes e inconscientemente nos liberarmos para prática de tudo o que condenamos. A desilusão total é o primeiro passo para adesão total ao sistema podre que nos cerca. Calma, amigos e amigas. Existem sementes que permanecem muitos anos esperando quietinhas no solo da mata de algum dos velhos gigantes da floresta cair para germinar. Cada coisa tem seu tempo certo devir a luz. São milhares as sementes lançadas ao vento a cada estação de frutificação. Poucas chegam a germinar e crescer. Mas as que morrem servem de alimento para as sobreviventes. O pássaro que voa, come as sementes da erva rasteira e as espalha por aí. Algo que a erva não consegue fazer. São necessários anos e muitas adversidades para selecionar as coisas boas que carregamos. O terreno tem que estar preparado. Se tudo em volta parece dizer não, então para e espera. Talvez ainda não seja o tempo certo ou não seja a coisa certa. Recolhe-te na meditação.

Acalma tua mente e presta atenção nas coisas pequenas e bonitas que aqui e ali emergem. Persevera no teu processo de crescimento. É dele que depende, na verdade, o desabrochar de tudo que tens de bom para entregares ao mundo como manifestação externa de tua condição de evolução espiritual. Não esperes, nem te iludas em alcançar glórias logo. O trigo que ligeiro floresce, morre na mesma estação. As coisas duradouras levam tempo para alcançar a expressão plena de seus potenciais. Ainda que devagar, adubadas com muito suor, sofrimento e sacrifício elas fatalmente vêm revelar-se à luz e crescer em direção a ela. A renovação da floresta é o produto do somatório de cada árvore que sozinha alcança a sua plenitude depois de anos à sombra das plantas da geração anterior. Processo que acontece progressivamente e não de uma hora para outra. Está é a lei da vida. Confia e não te assustes com os rigores do inverno. Uma nova primavera sempre vem. Cuida com carinho de cada semente preciosa que nos trazem. Seu tempo ainda vem.

Arno Kayser

Agrônomo, Ecologista e Escritor

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