Dizimar a fauna para vender mais armas

por Aldem Bourscheit ©
Material de caça apreendido nos municípios gaúchos de Veranópolis e Nova Prata, anos 1960. Reprodução do acervo de Henrique Luís Roessler.
Foto: fiscais posam junto a armamento e caça apreendidos nos municípios gaúchos de Veranópolis e Nova Prata, anos 1950. Reprodução do acervo de Henrique Luís Roessler.
 

Dizimar a fauna para vender mais armas
por Aldem Bourscheit | Jornalista

Brasília (DF) – Travestida sob a alcunha de Frente Parlamentar da Segurança Pública, a Bancada da Balavive em uma cruzada política para facilitar a compra e o porte de armas de fogo pelos brasileiros.

Apesar da volta expressa ao passado, pois o livre comércio de armamento no país foi barrado em 2003, a medida beligerante é ovacionada pelo grupo frente à sempre alegada incapacidade do Poder Público para oferecer segurança à população.

Enquanto isso, qualificar e ampliar a capacidade pública de combate à criminalidade e melhorar a distribuição de renda para reduzir as tensões sociais são agendas intocadas pela grande maioria dos deputados e senadores.

Ainda sem sucesso na empreitada de enterrar de vez a legislação federal pró-desarmamento, a Bancada da Bala abusa da criatividade para aumentar a venda de revólveres, pistolas, espingardas e munição.

Nessa toada, um projeto de lei assinado pelo deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) em 2016 pretende liberar a caça de onças, tamanduás, tatus, lobos e todas as demais espécies silvestres e, de quebra, dar um empurrãozinho nas vendas do setor. Vale lembrar que a bicharada nativa já sofre com desmatamento e atropelamentos e está cada vez mais ilhada em reservas ecológicas.

Se aprovada, a proposta dará sinal verde ao tiroteio no território nacional, onde fiscalização e controle andam de mãos dadas com a falta de gente e de orçamento. Apesar de caçadores ilegais frequentarem o noticiário, especialmente quando flagrados dentro de Parques Nacionais e outras Unidades de Conservação, a prática é proibida no Brasil desde os anos 1960.

Todavia, assim como ocorre especialmente nos Estados Unidos, por aqui a indústria armamentista investe na atuação e nas campanhas de políticos permeáveis a seu ideário. Dados da Justiça Eleitoral jogam luz em gentis doações a candidatos.

Colatto garantiu um novo mandato como deputado federal, em 2010, com apoio da Associação Nacional da Indústria de Armas e Munições. O parlamentar figura hoje como coordenador de Meio Ambiente daFrente Parlamentar da Agropecuária, grupo que também aprova a caça do exótico javali e defende projetos de lei para garantir a posse e o porte de armas por proprietários e trabalhadores rurais.

Naquele mesmo ano, o setor investiu quase R$ 2,8 milhões nas campanhas do deputado catarinense e também de Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Sandro Mabel (PMDB-GO), Abelardo Lupion (DEM-PR), Moreira Mendes (PSD-RO), Guilherme Campos (PSD-SP), Jorginho Maluly (DEM-SP), Lael Varella (DEM-MG), Ana Amélia Lemos (PP-RS), Marcos Montes (PSD-MG), Gonzaga Patriota (PSB-PB) e João Campos (PRB-GO).

Doações e pressões setoriais seguem em marcha, mirando sempre benesses a serem pleiteadas pelaBancada da Bala. Além da atuação direta nos parlamentos, a pressão armamentista conta com ex-militares e ex-policiais atuando em agências de lobby.

Mais de 160 mil vidas humanas foram poupadas nos 15 anos em que o Estatuto do Desarmamento está em vigor. Com esses resultados indiscutivelmente positivos, nada mais racional do que manter as armas silenciadas, ajudando também a preservar os animais silvestres.

© Conect@ – Assessoria em Comunicação & Política
Aldem Bourscheit / Jornalista DRT/RS 9781
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Brasília (DF) – Brasil

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