Dia Mundial do Meio Ambiente: o lobo fortalece a alcateia e a alcateia fortalece o lobo

Ambientada na Praça da Bandeira em Novo Hamburgo, significativo local – pois não fosse a atuação do Movimento Roessler para Defesa Ambiental nos anos 80, aquela área teria sido transformada em estacionamento – rolou uma roda de conversa sobre o Dia Mundial do Meio Ambiente nos dias atuais e Agricultura Orgânica. A atividade integrou a Feira Viva, coletivo de produtores orgânicos com foco em trocas afetivas, resistência ao capitalismo, equidade social, respeito à natureza, animais e seres humanos.

O engenheiro agrônomo e presidente do Movimento Roessler, Arno Kayser, falou sobre o contexto em que foi criado o Dia Mundial do Meio Ambiente, durante forte processo de pressão popular, com o surgimento de diversos grupos de contestação dos padrões sociais, de feminismo e contra guerra, de segmentos da sociedade civil organizada pelo mundo todo, também motivados por causa da expansão da atividade industrial e seus impactos.

Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) chamou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, Suécia, que atraiu a atenção do planeta para as ações humanas que estavam provocando uma séria destruição da natureza e gerando graves riscos para a sobrevivência da humanidade. Desde então, o Dia Mundial do Meio Ambiente passou a ser comemorado todo dia 05 de junho, para marcar a luta pela preservação dos recursos naturais – até então considerados inesgotáveis.

Um pouco depois, na virada dos anos 70 para os anos 80, nasceram a Casa Natural de Novo Hamburgo e o Sítio Pé na Terra, na Lomba Grande. Locais importantes por reunir uma efervescência de ideias, sonhos e lutas pertinentes aquele contexto social. Mas, principalmente, por colocarem em prática ações como cooperativismo, agricultura ecológica, produção de alimentos orgânicos e uma forma alternativa de ser e estar em sociedade e de respeitar a natureza. Em tempo: “agricultura é o encontro das forças do céu com as forças da terra.”

Atualmente, as pessoas estão muito alienadas de tudo: do próprio corpo, da sua família, comunidade, cidade, país… e sobretudo alienados da natureza. “É por isso que existem as chamadas ‘fazendas terapêuticas’, onde as pessoas vão conviver mais ligadas à natureza, plantar e cultivar a terra para se curar. É a reconciliação com a floresta” (título de um dos livros de autoria de Arno Kayser).

Arno ressaltou que sem coletivo a gente não funciona, a organização coletiva é fundamental para nossa sobrevivência, a exemplo da Feira Viva, onde as pessoas se encontram pessoalmente. “Tem olho no olho, encontro físico, momento de criar forças.” Daí o exemplo da alcateia, para a qual o lobo é a força e da qual recebe força.

O repórter Aurélio Decker, após elogiar Arno Kayser por conta de suas antigas colunas sobre Meio Ambiente num periódico hamburguense, cobrou maior atuação do Comitesinos e do Movimento Roessler em prol do Rio dos Sinos. Criticou o acordo entre Comitesinos e os arrozeiros, que em caso de estiagem prevê a suspensão do bombeamento de água para as lavouras de arroz. Como se esse fosse o principal motivo pelo rio estar se transformando em “uma pasta preta e mal cheirosa”, como antevia Henrique Luiz Roessler há décadas.

O cervejeiro e feirante Tiago Genehr lembrou que o problema é de todos, passa pela forma como nos alimentamos, nos transportamos, enfim, como vivemos. “A escolha é de cada um. O tempo dos mitos, dos heróis, já passou. Agora é o ser humano por ele mesmo”. Ele enfatizou a forma de organização da Feira Viva, com participação de todos, horizontal, sem uma coordenação hierárquica, que passa pela opção de cada um, em viver de outra maneira.

Arno frisou que o maior problema de poluição do Rio dos Sinos hoje é a falta de tratamento de esgoto. A captação de água para plantio de arroz é coisa mínima perto do impacto da geração de 100 litros de dejetos/dia, por casa, jogados diretamente no rio, num universo de mais de 2 milhões de habitantes. Isso coloca o Rio dos Sinos no ranking de quarto rio mais poluído do país, conforme Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O agricultor Fábio Dias, experiente no cultivo de orgânicos, falou que é preciso ocupar espaços “metaforicamente e fisicamente”, e citou o exemplo do avanço do plantio de arroz orgânico do Movimento Sem Terra (MST), no Rio Grande do Sul – o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.

Arno finalizou com aquela frase que desde os anos 70 se ouve falar: “pensar global e agir local”, hoje mais ainda a gente precisa seguir nesta linha. Afinal, como alertou Mahatma Gandhi “o mundo é capaz de prover a todos as suas necessidades básicas. Mas não é grande o bastante para prover os desejos de uma só mente ambiciosa.”

Que a coletividade seja fortalecida!

Cátia Cylene
Jornalista

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