Criança-Natureza-Poesia: Cenas e Considerações

O rio que fazia uma volta

atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole…

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz…
se chama enseada…

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros 

 

Cena 1

Estou no pátio da escola quando Ana vem correndo me mostrar uma vagem. Ela não teve tempo de expressar oralmente o que estava trazendo, pois automaticamente, incorporo a bióloga e falo pra ela que se trata de uma vagem, que ali dentro tem sementes e que essas sementes darão origem a novas plantas, que darão novas vagens, que podemos plantá-las… Ela me olha estranho, como que não entendendo nada. Diante da reação dela me transformei em interrogação. Felizmente, Viviane, professora da Ana, que nos acompanhava a distância vem em nosso socorro e diz:

– Rita, Ana quer te mostrar a lua!

Claro, a vagem tinha o formato (lindo!) de uma lua crescente. Instantaneamente, me lembrei da poesia de Manoel de Barros, essa citada acima. Fiquei com vergonha da minha falta de sensibilidade: não vi a lua, não ouvi a Ana e pra piorar, me exibi com minha verborragia acadêmica pra uma criança de 2 anos e meio!

Cena 2

Caminhando com Francisco, meu filho de 5 anos, na “floresta” cuja vida nos proporcionou o privilégio de vizinhar, observamos os raios de sol permeando a mata, formando um lindo desenho de luzes e sombras. Ele, inundado de inspiração, comenta:

– Parece que estamos dentro das listras de um tigre, né mãe!?

Eu, que já fui pra bem longe nesta viagem poética (Manoel, Ana e Vivi me ensinaram direitinho!), entro em profunda reflexão quando ele, com muita seriedade, complementa:

– Só que numa atitude bem maior!

Primeiramente, fiquei na dúvida se a palavra atitude estava adequada. Ele talvez quisesse dizer numa perspectiva bem maior ou numa dimensão bem maior. Mas fiquei em silêncio, curtindo e pensando… Foi quando me veio a segunda dúvida: será que eu tenho a sensibilidade e a sabedoria necessárias para compreender a poesia capturada pelos olhos das crianças? Será que ele escolheu a palavra certa e eu, na dureza adulta, não tenho capacidade de compreender o alcance da palavra escolhida por ele? Será que minha atitude diante da vida tem a beleza da poesia? E então me vem uma terceira dúvida: se, enquanto espécie humana, tivéssemos lentes mais poéticas para ver o outro (incluo aqui toda possiblidade de outro: planta, bicho, humano, luz do sol, vento…), a vida seria diferente?

Amor à primeira vista é a melhor expressão para definir minha relação com o poeta Manoel de Barros. Infância, natureza, coisas “miúdas e desimportantes” se misturam e se evidenciam em sua poesia. Talvez porque o amor a estas “coisinhas” já existisse em mim antes de conhecê-lo. Talvez porque sua poesia foi a melhor pedagogia que encontrei para me aventurar com as crianças pequenas no universo da Educação Ambiental. Para que nomear se o que precisamos é criar “intimidade com as coisas”? A imagem de uma grande cobra de vidro passando atrás de casa tem significado muito mais profundo do que a palavra enseada; ela tem algo no nível da intimidade. E intimidade é o sentimento básico para que se acenda em nós a vontade e a atitude de cuidado com toda forma de vida. O rio-vidro mole, a lua na vagem, o mergulho nas listras do tigre são poesia pura e ampliam a dimensão do existir rumo ao infinito. A enseada e a vagem são ciência, estão definidas, classificadas, limitadas.  Numa relação inicial, quando ainda se tem poucos anos de vida a poesia tem larga vantagem sobre a ciência, porque as coisas são sentidas (com o corpo e com a alma!) e não classificadas ou categorizadas. Luiza Lameirão, em seu livro “Criança brincando! Quem a educa?” ratifica essa ideia ao falar da importância da linguagem poética para crianças:

Tudo o que elas puderem ouvir e falar – histórias, parlendas, poemas – leva à criação de diferentes matizes de sentimento em sua vida interior. Por outro lado, tudo o que é definido, nomeado de antemão, impede a descoberta do fenômeno e torna-se estanque. Comparado a água, é como água parada, água de tanque, que perde seu fluxo e torna-se turva e infértil. (Lameirão, 2007, p.62)

Assim, ao falar de Educação Ambiental para crianças pequenas (e por que não para as grandes também?) não vejo outro caminho fora da brincadeira (já defendida em outras oportunidades) e da poesia, lugares onde as crianças são os verdadeiros mestres. Com a Pedagogia Waldorf aprendi algo fundamental: nos primeiros sete anos de vida precisamos mostrar às crianças que o mundo é bom, que vale a pena viver. Façamos nossa parte, deixemos que as crianças nos guiem com sua curiosidade e encantamento renovando o que é bom, nos potencializando e fiquemos atentos para que a razão científica não reduza a intimidade com a vida. Precisamos materializar a poesia de Manoel, oportunizando que as crianças tenham mais “comunhão com as com as coisas do que comparação”. Para as crianças natureza é poesia, é brincadeira; a ciência terá seu tempo e espaço garantidos, depois.

Para finalizar, informo, com grande satisfação (e alívio!), que Ana seguiu procurando luas nos matinhos e pedrinhas da escola e que a atitude de Francisco foi a grande inspiração para esta escrita.

Rita Jaqueline Morais
Mãe do Francisco; bióloga-professora de crianças pequenas; criança íntima de coisas miúdas e desimportantes.

 

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