Criança e/é Natureza

“Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
pra gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.”
Manoel de Barros

 

Peço licença para contar uma pequena história vivida por uma criança bem pequena. Mas vou avisando, prepare seu coração porque pequena não significa desprovida de beleza, emoção e reflexão.
A mamãe pergunta ao filho de dois anos o que ele gostaria de levar para a sua professora para comemorar a passagem do seu dia, ao que ele responde:
 
– Uma “coba”! (na verdade referindo-se a uma minhoca).
A mãe diz:
– Uma minhoca? Mas isso a professora não vai gostar.
– Vai gostar sim!
– Eu não iria gostar de ganhar uma minhoca.
Seguem os dois nessa discussão, quando depois de imaginar tantas coisas, a mãe pergunta:
– Mas porque tu achas que a professora vai gostar de ganhar uma minhoca?
– Porque a “pofi” vai colocar na plantinha, a plantinha vai dar flores e ela vai ficar feliz!

Essa criança, apesar de tão pouca idade, mas embasada em sua própria experiência, consegue propor algo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo para a sociedade contemporânea: ela diz não ao consumismo e sim à vida, ao cuidado, à amorosidade e à beleza.

Esqueci, lá no início, de contar um detalhe importante: esta é uma história verdadeira e ocorreu lá na EMEI Pica-Pau Amarelo, no bairro Canudos, em Novo Hamburgo. Uma escola onde as crianças tem a oportunidade diária de realizar brincadeiras com terra, barro, água tendo liberdade para ser criança e expressar sua natureza. Nestas brincadeiras livres e, também naquelas em que são convidadas/incentivadas a participar, como de cultivar a horta e cuidar da casa das minhocas, vão construindo saberes sobre a vida, constituindo suas subjetividades, aprendendo e ensinando lições simples e profundas, como esta.

Para contar outras pequenas-belas histórias das crianças e da sua natureza (leia-se SUA no duplo sentido que ele pode ter aqui: natureza interna de ser criança e natureza externa de ser natureza) é que passo a ocupar este espaço a convite dos queridos amigos do Movimento Roessler. E sem me alongar muito ainda peço licença para contar mais outra história, a minha própria, dizendo de onde venho e como vim parar aqui: meu nome é Rita Jaqueline Morais, sou mãe do Francisco, de 4 anos e professora há 24 anos. Nos últimos 8 anos, tenho me dedicado, especialmente, ao trabalho e ao estudo da relação crianças e natureza. Cresci brincando no chão, construindo cabaninhas de capim, subindo em árvores, soltando pandorgas, construindo cataventos, rolos de lata, rolando “montanhas” de barro vermelho e tudo mais que uma criança deveria ter direito de fazer. Foi assim que começou a minha relação com a natureza! Foi assim que, concretamente e poeticamente, eu me descobri natureza!

Na adolescência tive uma professora de Artes, que não lembro o nome (Desculpa professora por esse meu lapso imperdoável!?) mas lembro bem que ela trazia uns “papeizinhos” e propagandas do Movimento Roessler. Paralelamente a isso lembro que líamos no jornal notícias de um tal ecologista cabeludo de nome Arno Kayser. Na época eu não tinha muita dimensão do que ele fazia, mas sentia que era algo fundamental e desenvolvi um grande respeito e admiração por ele e sua trajetória. Foi assim que começou a minha relação com o Movimento Roessler. (E não posso deixar de mencionar que a emoção me lacrimejou os olhos ao relacionar essa época com a oportunidade de poder escrever neste espaço, tentando sensibilizar tantos outros, assim como fizeram comigo).

Minha formação acadêmica é em Biologia, mas, sempre tive uma preferência pelo trabalho com as crianças pequenas. Então optei por fazer uma especialização em Educação Infantil. Foi assim que começou o aprofundamento da minha relação com este tema Criança e Natureza, pelo qual sou apaixonada.

De 2009 para cá, tenho tido a oportunidade de trabalhar também com formação de professoras e, na troca com as mesmas, tenho certeza de que aprendi muito mais do que ensinei. Nesta relação, além das minhas próprias histórias, colecionei falas e cenas das crianças narradas por estas colegas/amigas que também irei compartilhar aqui.

Neste espaço pretendo falar de Educação Ambiental. Não dos problemas ambientais, das causas, das batalhas, da necessidade de mudança de hábitos. Não que os considere desnecessários, muito pelo contrário, mas o enfoque será outro: falar de Educação Ambiental para crianças ainda pequenas. Falar de alegrias, beleza e encantamento. Falar de criança, falar de árvore, falar de comer fruta no pé, falar de vida! Falar dos primeiros encontros com a natureza, experienciados pelas crianças de minha convivência. Falar de crianças e falar da natureza. Falar e brincar com o trocadilho criança e/é natureza dando voz às crianças através das cenas protagonizadas por elas mesmas. Fica o convite para aqueles que desejarem acompanhar, para uma nova história, no próximo mês.

 

Rita Jaqueline Morais
Professora aparelhada para gostar de crianças e passarinhos

Comments(3)

  1. Letícia Streit says

    Rita! Parabéns pela maneira linda e sensível que escreves. E obrigada por dilatar nossas pupilas de uma forma tão especial para nossa relação com a natureza! Certamente vou acompanhar tuas escritas por aqui! Grande abraço!

  2. Kurt G. H. Schmeling says

    Professora Rita Jaqueline! Agradeço-lhe por esta contribuição! È o que procurávamos proporcionar a nossos filhos! Pobres “ricas” crianças “modernas” que não têm mais acesso a esse espaço de contato com a natureza (e a naturalidade)! Continue presenteando-nos com suas “historinhas”!
    Sugira à redação do “Jornal do Roessler” que abra uma seção permanente a seu cuidado!

  3. arno kayser says

    Rita! Muito obrigado pela gentil menção ao meu nome no teu relato. Ficou feliz em saber que meu trabalho, que por vezes é tão cabeludo, tenha contribuído pra tua formação pessoal e que tenhas te convertido em mais um educadora voltada para os temas ambientais. São notícias assim que anima a gente a seguir nesta missão

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