Centenário do Nascimento de Milton Roessler – Grande Ecologista!

O FILHO MILTON ROESSLER, QUE ESTEVE JUNTO DE SEU PAI SEMPRE.
Centenário do Nascimento de Milton Roessler. (06 de Outubro de 1917)

O menino de nome Milton, com música na alma, amava a Criação Divina, pois ouvia seu forte pai Henrique Luiz falar embevecido sobre a importância do amor ao que Deus nos emprestou para cuidarmos. E uma por uma, as palavras do pai de Milton entravam em seus interiores ainda infantis e ajeitavam-se solenemente para morar nos cantos mais lindos daquele ser, que guardava os dizeres que brotavam do ideal do pai, mentor e professor de vida. Na visão do menino, um Gigante de sabedoria a quem precisava ouvir com paixão durante toda a sua vida.

O menino Milton tinha uma sensibilidade imensa e a música morava nele, dividindo o lugar do coração com tudo que o pai Henrique Luiz Roessler dizia, escrevia, e, sem perder nada, o pequeno absorvia o que formava seu mundo de bela sonoridade. Todos os ideais do pai, o filho Milton Roessler usava para edificar seu mundo de amor à Natureza com o som das mais belas páginas dos grandes compositores da Música Erudita.  – Podemos imaginar a alma deste menino? Sim, eu como filha posso! E sei que enquanto Milton Roessler crescia, seu mundo interno tornava-se mais valioso: um tesouro – pela combinação de melodias lindas com os ensinamentos sobre a defesa da Natureza. E Milton era feliz, mas preocupado desde a juventude com o pai Henrique Luiz, pois era um Gigante destemido, motivo suficiente para Milton sofrer por medo das maldades que poderiam acontecer com ele.

   Por todos esses motivos Milton Roessler uniu-se a seu pai e passou a ajudar em tudo que fosse necessário no trabalho de defender a vida natural. Milton era o fiel secretário de seu pai, mas um trabalhador perfeccionista que propiciava um tudo que seu pai precisava de modo claro e organizado e que Henrique Luiz não teria como fazer, pois cada hora de sua vida era destinada a fiscalizar a vida natural e o que faziam com ela: as maldades começavam a acontecer em todos os braços da Mãe Natureza e o trabalho de Henrique Luiz era imenso. Toda a estrutura para que isto acontecesse estava nas mãos do filho que tanto amava aquele pai. Assim, o grande defensor do ambiente natural tinha como trabalhar com toda a parte burocrática e o resto que é necessário para que alguém se movimente pelos cantos de uma terra a ser fiscalizada. Contatos, cartas aos voluntários, telefonemas (quando não existia telefone em casa) e tudo era mais difícil do que hoje. Enfim, uma estrutura de base – tanto burocrática, quanto do que era necessário para levar nas viagens. Tudo! Imaginando tudo a gente acerta na avaliação mental do que era feito por meu pai,Milton Roessler. Vovô explicava e Milton sabia como fazer para que o Grande Fiscal da vida pudesse desempenhar seu maravilhoso serviço ao planeta.

 

Eu despertava e ouvia meu avô falando com meu pai sobre a faina diária. “Preciso me comunicar com o Serviço de Caça e Pesca.” “Precisamos de um Jipe!” … – Também é importante falar com dois ou três companheiros ajudantes…” E as necessidades para as batidas continuavam…

E assim vovô ia falando sobre tudo que precisava. Contudo, logo que as notícias de depredações naturais chegavam com as denúncias, meu pai Milton já sabia tudo o que deveria fazer, melhor do que vovô. Seria longe, desta vez a fiscalização e as mulheres já arrumavam tudo que vovô precisaria levar. Era segredo para todos os demais E NINGUÉM PODERIA SABER QUE VOVÔ, HENRIQUE LUIZ ROESSLER, IRIA SAIR PARA LONGE, POIS LOGO OS RECADOS CHEGARIAM AOS INFRATORES E TUDO ESTARIA ESTRAGADO. Viagem perdida…

Meu pai Milton ficava nervoso e colocava a Sinfonia Pastoral de Beethoven no toca-discos,  para se acalmar. Logo ouvia todo o ambiente bucólico que Beethoven descrevia através de uma belíssima sonoridade: era a música falando da vida natural… Então pensava que Deus cuidaria de seu pai amado e nada de mal aconteceria. Silencioso, Milton vibrava como se estivesse com o coração de seu pai, idealista e forte dentro de seu peito… E assim aconteceu por toda a vida. Apenas as personalidades eram diversas, mas o foco era único, defender a Natureza. Às vezes eu ouvia Milton dizer: Se Deus quiser, logo eles estarão de volta e eu o ouvirei para fazer os relatórios. E poderei fazer isto de alma leve… Era uma dedicação a seu pai amado que chegava a ser comovente.

Meu pai sempre desejava que, mais uma vez, vovô se salvasse dos inimigos…

E assim tudo acontecia com Milton ao lado do pai que tanto admirava, apontando para os perigos e solicitando, sem que vovô ouvisse, que os companheiros cuidassem do que fosse possível, no sentido de enfrentar os inimigos.

Cuidava do pai, pelo valor de sua vida. Penso que reconhecia o quanto ele era importante para a Natureza…

Na verdade, meu pai Milton se esquecia dele próprio para que o pai sempre estivesse bem.

E no dia a dia isto representava um trabalho para muitas pessoas e meu pai, em determinadas ocasiões até precisava da ajuda de secretárias, para dar conta do que vovô precisava. Muitas denúncias, muita fiscalização, e logo vovô já era conhecido em todo o Rio Grande do Sul.

A contar dos dezesseis anos de Milton Roessler, quando Henrique Luiz Roessler se afastava, o filho Milton ia assistir aos concertos dos grandes pianistas de fama internacional, no Teatro São Pedro em Porto Alegre. Ia de ônibus, sozinho e retornava muito tarde da noite, com um único ônibus que ia, se não me engano até Estância Velha. Voltava sonhando com o que assistira e desembarcava em São Leopoldo. Quando ele retornava, ficava horas na sala ouvindo as peças musicais que constava nos programas dos recitais… O Instrumento que ele amava era o piano, por isto  estudou em Novo Hamburgo até o último ano. Ia aperfeiçoar-se mais, mas não era possível, pois adiantado como estava teria de estudar muitas horas por dia e pelo trabalho de meu avô, abandonou os seus estudos, sempre pensando que um dia voltaria a estudar. Tudo que consta neste último parágrafo foi antes do casamento de meu pai e de meu nascimento….

E assim o Movimento iniciado em 1932 vicejou e tornou-se conhecido em todo o estado, e mesmo tão cedo, fora dele, e também pelo país afora…

Adiante, por volta de 1940, meu pai casou-se com Annelisa, chamada amorosamente de Lisa pelos seus sogros Henrique Luiz Roessler e Thekla Hasse Roessler: os pais de Milton. E é importante relatar que meus avós amavam muito minha mãe. Era uma filha para eles. Em 1945 eu nasci, sendo muito esperada pelos pais e avós…

Minha infância é inesquecível e estou sempre a lembrar-me  dos momentos felizes que vivemos. Imagino a incrível educação e os valores que recebi por conviver com pais e avós, num ambiente de trabalho intenso. Com um idealismo desmedido e imenso amor  à causa da defesa da vida natural.

Em 1963, dia 14 de novembro, Henrique Luiz Roessler faleceu como presente de Deus. Ainda um homem moço, fechou os olhos e viajou para o outro mundo sem ver os horrores que começaram a fazer com a vida natural que ele amava. Já faziam barbaridades, mas uma depredação como foi indo, até chegar aos dias de hoje, acredito que os anjos não permitem que ele veja do paraíso… Mas Milton que faleceu em 3 de janeiro de 1992, viu e sofreu pelos horrores que assistiu…

A partir da morte de meu avô, Milton e eu começamos a ser mais íntimos e o afeto cresceu. Já havia meu irmão Luiz Roessler, e logo que eu fora graduada em música, conversava muito com meu pai Milton sobre as Sonatas de Beethoven, entre elas a “Aurora”, apelido muito comum que a obra alcançou na França, e como meu pai se referia a ela, embora seja conhecida entre a classe dos eruditos intelectuais como “ A Waldstein”, por ser dedicada ao Conde Waldstein. Contudo no coração de meu pai e no meu, sempre será a nossa “Aurora”, e eu sigo seu pensamento sobre as partes da sonata em que vislumbrava, através da música, a mais bela aurora que alguém já viu. Fico imaginando a felicidade de meu pai Milton, no céu, quando a netinha, filha de Carolina, minha filha querida que ele tanto amava, recebeu o nome de Aurora Roessler. Uma neta com o nome de Aurora! Ah! Ele deve ter feito festas com os anjos e muitas vezes falou a eles sobre a famosa peça musical que, como os franceses, chamou de Aurora… Hoje, em seus cem anos, eu vibro com a alegria de meu pai, pelo nome de minha neta Aurora… Ela é Luz, toda iluminada e que o nosso Deus dos céus a proteja sempre de todos os males! Amém.

Mas também tinha Chopin, e a Sonata da Morte. Milton e eu a amávamos… Eu ainda a amo. Mas ainda falaremos muito sobre as belezas desta obra… Depois, os Noturnos, os Prelúdios, Scherzos, Baladas, Polonaises e, ai meu Deus, as valsas de Chopin, os Improvisos e os dois Concertos para piano e orquestra em que Chopin presta uma homenagem ao piano, seu instrumento amado, pois toda a sua obra foi essencialmente pianística. A homenagem junto à orquestra e como “O maravilhoso poeta do teclado” preparou a entrada do piano no Concerto Número 1, e no de número 2, belíssimo também quando o piano toca em relação aos outros instrumentos… Tudo isto meu pai  MiIton, misturava às belezas naturais e à visão de uma natureza recuperada. Mas não acreditava. Dizia sobre o que aprendeu e ao que assistiu: os homens maltratam a Natureza e ela dará sua resposta…

Felicidades, paizinho querido nestes teus cem anos. A vida no planeta Terra não foi fácil para ti. Aqui houve muitas coisas feias que não deverias ter visto ou sentido, mas tua Lisa foi tua luz ao teu redor, te alegrando e iluminando com sua felicidade constante e forte! Parabéns por tua vida de herói que não exigiu holofotes, pois no fundo de tua alma, a música sempre te fez sonhar… Passaste a vida junto ao Pioneiro que tinha, como tu, pavor de homenagens vazias. Os dois queriam ação! Mas o que vinha de vocês sempre era considerado, apreciado, querido…

Agradecemos ao Movimento Roessler que completará 40 anos de tanto trabalho. Milton Roessler gostava de vocês e de ti então, Arno Kayser, reservado como era, te queria muito bem. Era grato… Virtude rara…

Com todo o meu amor, a meu pai e a todos os integrantes do Movimento Roessler.

 

Maria Luiza Roessler

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