Catástrofe no Rio dos Sinos

Por Arno Kayser

Conforme já noticiado através dos meios de comunicação em nível nacional e internacional, o rio dos Sinos registra o maior desastre ecológico do Estado desde o caso do navio Bahamas no porto de Rio Grande. Antes deste, só o caso do Hermenegildo registrou tantos animais mortos e uma comoção tão grande da sociedade gaúcha. A mortandade de peixes foi a maior nos últimos trinta anos. Morreram mais de um milhão de peixes, o equivalente a mais de 50 toneladas. Uma tristeza tremenda que mostra o descaso com o meio ambiente, tanto de alguns poluidores individuais, que nas madrugadas de expectativa de chuva lançam dejetos sem tratamento, como dos poderes públicos que postergam sempre o início do tratamento dos esgotos domésticos e que não dão prioridade política para a manutenção de órgãos ambientais eficientes para fiscalizar aquelas que agridem a natureza com o rigor que a sociedade espera.

Todos os indícios apontam para uma conjugação nefasta de fatores que levaram à tragédia. Por um lado, o rio estava baixo e represado pelo Guaíba. Com o pouco movimento d’água, diminui o oxigênio dissolvido e concentram-se mais ainda os dejetos de esgoto cloacal não tratados. Muitas indústrias grandes na região do arroio Estância Velha – Portão lançaram efluentes com carga poluidora acima do permitido em suas licenças. Era sexta-feira de noite e havia uma previsão de chuva forte, ocasião em que algumas empresas, com menor compromisso ambiental, costumam aproveitar para lançar uma grande dose de efluentes sem tratamento, na expectativa de que a chuva os dilua e os faça sumir sem deixar rastro.

Só que a chuva não veio e o derrame dos dejetos agiu sobre uma situação crítica como a gota d’água que vira o copo. Foi o que bastou para toda esta carga atiçar a fome dos microorganismos que acabaram com o oxigênio d’água bem no período da piracema, ocasião em que milhares de peixes se movimentam para a reprodução. Encontraram um rio sem oxigênio. Isso agrava ainda mais a questão e compromete a vida das espécies no futuro. O resultado é o quadro terrível que já é notícia no país e no mundo.

O serviço de emergência da Fepam foi acionado no domingo e começou a trabalhar, com o apoio das prefeituras de Estância Velha, Sapucaia, Esteio, São Leopoldo, Batalhão Ambiental e Defesa Civil.

Além das ações de contenção e retirada dos peixes começou-se uma investigação de algumas dezenas de empresas suspeitas do lançamento. Também foram feitas coletas de material para análise visando investigar as origens do dano. Num primeiro momento foram identificadas três empresas, mas outras podem surgir ainda graças a dezenas de denúncias que a população vem fazendo.

Estas três já estão sendo multadas. Além disso, a Fepam vai intimar todos os municípios da região do vale dos Sinos para apresentarem planos de tratamento do esgoto cloacal. Ainda foi determinado que todas as empresas da bacia do arroio Estância Velha – Portão reduzam o lançamento de dejetos em trinta por cento enquanto prevalecer a situação de emergência no rio.

Estas medidas visam responsabilizar todos os setores que tem sua parte na geração do desastre. A direção da Fepam prometeu que até semana que vem apontará todas as empresas responsáveis pelo dano e encaminhará informações para o Ministério Público abrir processos junto à justiça pelo crime ambiental cometido.

Muita gente comentou comigo que nunca imaginava que ainda houvesse tantos peixes no rio dos Sinos. Tem sim! O desastre mostra que se as medidas de controle da poluição forem tomadas a possibilidade de recuperação é grande.

Fonte: ADITAL

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