CAMAQUÃ, UM RIO LIVRE

Precisamos manter o rio Camaquã livre de barramentos. Barramentos fragmentam os fluxos hídricos, provocam perdas de “habitats”, transformam ambientes lóticos em lênticos, interrompem rotas migratórias de peixes, isolam espécies, modificam processos metabólicos, mudam o gradiente hidráulico, alteram o regime de vazão e fluxo, influem no processo sedimentar, atuam cumulativamente e acentuam os efeitos sinérgicos, interferem local e regionalmente, impactam a própria bacia hidrográfica e a vida das pessoas.

Os  430 quilômetros do  rio Camaquã recolhem muito mais do que água de sua Bacia Hidrográfica que abrange 21,65 mil km2, uma vez que narra a face mais gaúcha de nossa identidade pampiana; acolhe raro patrimônio cultural, abriga ocorrências de interesse paleontológico, molda relevos incomuns como geossítios, complexifica interrelações e fragilidades. Entre tantos outros atributos, há que se acrescentar a reconhecida preservação do rio e sua bacia. Assim, sem desconhecer degradações exploratórias que já ocorrem, pode-se dizer que a bacia do Camaquã ainda resiste, como resistirá, por certo, às demandas  por barramentos destinados à instalação de hidrelétricas, particularmente agora, quando se acentuam as mudanças climáticas.

Entre outras possíveis e necessárias proposições protetivas,  oportuniza-se  que o rio Camaquã,  seja alçado, através de Lei,  à condição de patrimônio natural, geobiodiverso, paisagístico e histórico cultural imaterial do Estado do Rio Grande do Sul.

Assim, convictos de que que o rio Camaquã e sua Bacia Hidrográfica vocacionam-se ao turismo natural e irmanados com os comitês de bacias hidrográficas, as comunidades locais, regionais, o Sistema Ambiental, movimentos, entidades e a sociedade gaúcha como um todo, em amplo e transparente processo de participação corresponsável podemos firmar um organizado compromisso coletivo: manter o rio Camaquã fluindo livre.

JOSÉ ALBERTO WENZEL/geólogo-naturalista

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