Declaração de Porto Alegre pelo aquerenciamento planetário

Temos na paisagem do Pampa riograndense um pássaro chamado quero-quero, que é considerado a sentinela do Pampa. O quero-quero, diferentemente de outras aves, faz os seus ninhos no chão, vivendo a maior parte do tempo em contato com a terra e apegado ao lugar onde vive. A este lugar em que o quero-quero, outros bichos e o próprio ser humano costumam ficar, no linguajar gaúcho nós chamamos de “querência”. Em português esta palavra se reporta ao verbo querer. A querência é um lugar que tem uma vontade, um querer originário, conforme a própria etimologia da palavra indica. Mas não é um querer isolado e separado do querer humano, dos animais e das plantas que ali vivem. O querer da querência requer o querer de tudo o que ali vive, de tudo o que pertence ao lugar, inclusive a paisagem. Ser apegado a um determinado lugar é ser aquerenciado. O processo de se apegar a um lugar se expressa com o verbo “aquerenciar”. Ser aquerenciado significa também estar de bem com a vida, estar na posse da plenitude do sentido da vida. Na sabedoria camponesa aqui do sul do Brasil, da Argentina e do Uruguai, do gaúcho, a felicidade é o próprio sentido de pertencer a um lugar.

A querência é a intimidade com a natureza e com as coisas do local em que se vive. É ser parte das histórias das pessoas, dos animais e das plantas de um lugar. É ter a própria identidade pessoal, a própria história individual, inseparável de toda a teia destas histórias. É estar em casa no mundo. Por outro lado a pessoa que é infeliz, que não encontrou o seu lugar no mundo, que está de mal com a vida, é “desaquerenciada”. A pessoa desaquerenciada não tem paradeiro fixo, vive inquieta, sempre a procura de um outro lugar, insatisfeita, angustiada, no estado de carência, de falta. Na perspectiva da sabedoria gaúcha, o problema ecológico é a humanidade estar desaquerenciada da Mãe Terra, da Pachamama, de Gaia, a suprema morada do homem.

O FSM é uma tentativa planetária de aquerenciar a humanidade na Terra. Mas para que isso aconteça, cada ser humano deve ser alerta e vigilante como o quero-quero, deve exercer a sua condição de cidadania planetária defendendo a Terra e a Humanidade em cada local onde vive. Cada cidadão do mundo pode se inspirar no exemplo da sentinela do Pampa: ao pressentir a aproximação de um perigo, o quero-quero dá o alarme, começa a gritar o canto que deu origem ao seu nome e a fazer investidas contra o intruso através de vôos rasantes.

Para nós, ecologistas gaúchos, o quero-quero é o símbolo da soberania política e da cidadania planetária que o movimento ecológico gaúcho vem ajudando a instaurar no mundo na busca da sustentabilidade. Como o quero-quero, os ecologistas gaúchos através da ação de pioneiros como o Padre Balduíno Rambo, Luís Henrique Roessler, José Lutzenberger e outros, começaram a chamar a atenção do Brasil e do mundo para o perigo e a inviabilidade ecológica da cultura ocidental. A hegemonia mundial do modelo civilizatório ocidental, antropocêntrico e eurocêntrico, é inseparável dos processos de dominação ecocidas e etnocidas do colonialismo e do neo-colonialismo promovidos pelos países do Hemisfério Norte.

…A cidadania planetária e a dimensão local são constitutivas do movimento ecológico como novo paradigma político. É por isso que a querência e o quero-quero são símbolos universais do horizonte para onde se dirige a caminhada do movimento ecológico em todas as latitudes. O movimento ecológico e o novo projeto de civilização que nós estamos criando, voltado para o equilíbrio, a sustentabilidade, a diversidade cultural e a biodiversidade, baseia-se no paradigma da complexidade e da interdependência. A ecologia abre um novo horizonte de solidariedade que supera e relativiza os valores, visões de mundo, as concepções de política e as ideologias geradas pela cultura ocidental. O paradigma da complexidade não é excludente. O movimento ecológico não é uma luta entre o bem e o mal. E a cultura ocidental é necessária mas, certamente, não suficiente para a superação da crise ecológica planetária que ela gerou.

…Um dos mecanismos culturais básicos do neocolonialismo é o eurocentrismo que mina a auto-estima, a autoconfiança e a autodeterminação dos indivíduos e dos povos, colonizando as nossas mentes com um olhar que desaquerencia e nos coloca fora do mundo e do lugar em que estamos. Este não sentir-se em casa no mundo, esta busca de um ideal de felicidade desaquerenciado da Terra, principal produto de exportação cultural do eurocentrismo, faz com que nos sintamos inferiores, infelizes e dependentes. Significa a própria perda do sentido da vida na sua dimensão ecológica e política.

O desaquerenciamento planetário imposto pelo neocolonialismo ocidental se alimenta da exclusão e da simplificação demonizante da complexidade natural e dos conflitos do mundo, em nome de um futuro abstrato sem presente… Não queremos e não podemos nos dar ao luxo de adotar o modelo de um projeto de civilização insustentável e inviável, ecocida e etnocida.

…A problemática do patenteamento dos seres vivos, da transgenia, da destruição das florestas tropicais, da diminuição da biodivesidade, das mudanças climáticas, da poluição dos oceanos e da estratosfera, bem como a destruição de culturas tradicionais, evidenciam o papel perverso dos estados para a crise ecológica.

…A formação de Redes de Solidariedade e a participação no movimento ecológico e social em nível local e regional é indispensável para mobilizar a população e reverter este quadro de desinformação. …Para nós, do movimento ecológico gaúcho, o FSM pode ser comparado com uma revoada de quero-queros que espalha pelo mundo o grito de alerta para o aquerenciamento da humanidade no seio da Mãe Terra. Um novo mundo é possível.

Celso Marques, ecologista e filósofo da AGAPAN.

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