A PEREIRA E O MARMELEIRO

Vivemos um tempo em que muita gente está duvidando da ciência e preferindo apostar em outros saberes. Alguns muito válidos, outros nem tanto. Mas afinal  com qual devemos ficar: o saber popular ou o saber científico? Sobre essa polêmica a ex primeira dama da França, Danielle Mitterrand, contou uma bela estória quando esteve entre os gaúchos em uma das edições do Fórum Social Mundial.

Certa vez uma senhora plantou um pereira em seu jardim. Bem cuidada ela cresceu forte e durante muitos anos produziu frutos de qualidade. A senhora colhia deliciosas pêras todos os anos. A produção era tamanha que ela podia distribuir para amigos e vizinhos e também fazer doces para comer mais tarde.
Mas, depois de trinta anos de produção, a árvore começou a desenvolver uns ramos diferentes na sua base. Estes ramos novos vieram com muita força e também começaram a dar frutos. Estranhamente, porém, ao invés de pêras eles começaram a produzir marmelos.
A senhora, intrigada, procurou um agrônomo para saber do porque de tal fato. Este lhe explicou que a pereira fora enxertada sobre um pé de marmelo. O marmeleiro é uma planta mais rústica e consegue suportar melhor as pragas de solo e doenças que atingem as pereiras. Especialmente as variedades mais delicadas como era o caso da sua árvore. Porém com o tempo o enxerto de pereira, por ser oriundo de uma planta mais velha, acaba entrando em processo de senilidade. O que permite o crescimento do marmeleiro sobre o qual ele foi enxertado. Era isto que estava acontecendo com a sua pereira
Está experiência pessoal foi relatada por Danielle Miterrand, durante o Fórum Social Mundial, em um debate sobre a troca de conhecimento entre os saberes tradicionais e os saberes científicos. Ela lembrou desta história para comparar ambos os saberes. Geralmente o conhecimento cientifico se serve de algum saber tradicional como base para iniciar suas pesquisas. Mas muitas vezes esquece desta base em que se apoia. Ao fazê-lo ele corre o risco de perder sua força. Quando isto acontece é comum que o saber tradicional ressurja de suas raízes para mostrar à ciência que deve manter sua relação de diálogo com o saber tradicional.
Ela defende que devemos construir uma ponte permanente de diálogo entre estes saberes. Um trás a força de milhares de anos de observação. Outro o poder da racionalidade capaz de compreender coisas que escapam ao olhar do Homem comum. Trabalhando em harmonia e regidos pela Ética do respeito à vida eles podem contribuir muito tanto para resolver os problemas da sociedade moderna, como os das sociedades tradicionais. Visando o bem comum devem trabalhar juntos para combater os efeitos de um processo econômico em que grandes empresas procuram se apropriar tanto do saber tradicional como do saber cientifico para gerar lucros para uma minoria e problemas para a maioria. Ambos vivem neste mesmo mundo e devem trabalhar como parceiros respeitosos da identidade do outro para a superação dos dilemas que atinge a maioria da população da terra. Quer seja ela civilizada ou tradicional.

Arno Kayser
Agrônomo, Ecologista e Escritor

Fonte:
https://arnokayser.wordpress.com/2020/08/18/a-pereira-e-o-marmeleiro/

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