A Morte do Mestre

Por Arno Kayser

“Sós os mais fortes encontram deus no caos da multidão” Dostoievski O fenômeno da morte de alguém que te marcou muito é algo difícil de lidar, mas que sempre nos trás muitas reflexões e marca passagens da vida da gente. Estava em casa, numa bela manhã de veranico de maio, destas que a estação sabe fazer, quando o telefone tocou. Havia algumas pessoas instalando um para raio em casa. Eu, sem saber bem o que fazer, estava matutando algo para escrever para o próximo artigo, quando a descarga emocional da notícia me atingiu. Era Augusto Carneiro, velho amigo do mestre, que, laconicamente, comunicou o fato. Um telefonema entre muitos outros que ele estava disparando pro amigos mais próximos. Procureialguma notícia nos telejornais enquanto, na minha mente, vinham-me lembranças das experiências de contato mais próximo com esta figura fantástica, que marcou profundamente, a história da luta pela defesa davida em todo o planeta.

Lembro-me de ter ouvido falar do Lutz, na adolescência, através de minha tinha Marlene, que freqüentava as palestras públicas que ele proferia na Agapan. Eventos que atraiam multidões para ouvi-lo. Aqueles contatos foram me acendendo uma luz interna, uma espécie de chamado, para a causa que ele sempre defendeu com uma coragem e maestria impressionantes. Fenômeno que as aulas de ecologia do professor Schmeling reforçaram. Depois vieram os contatos com os livros do homem. A obra escrita com o mesmo vigor e beleza de suas palestras. O ano era 78 e sua luta no caso Hermenegildo foi o fato desencadeador da criação do Movimento Roessler para defesa ambiental. Já na faculdade comecei a tomar contato mais próximo com o cara. Uma aproximação à distância. Era o tempo da luta contra os agrotóxicos e pela agricultura alternativa.

Brigas que abriam os olhos para a sabedoria da natureza no plantar e criar a vida. Neste tempo conhecemos Lili, uma das filhas. Através desta amizade fomos ficando mais próximos dele. Mas o primeiro contato pessoal foi somente em 84, na Casa Natural, quando se discutia a criação do sítio Pé na Terra. Passamos o dia inteiro juntos visitando áreas para um projeto de agricultura ecológica. Lutz pediu a indicação de um agrônomo jovem para gerenciar o projeto. O negócio evoluiu de outra maneira, mas a partir dali, passamos a ter uma relação mais próxima onde aprendi muita coisa. Lutz era um cara sempre agitado, com uma intuição e uma capacidade de percepção impressionantes. Mas sempre muito econômico na expressão de seus sentimentos. Demonstrava seu carinho com perguntas provocantes que te faziam pensar de um modo novo e enxergar as coisas de uma forma diferente.O contato aumentou quando o prefeito Paulo Ritzel o contratou para resolver o problema do lixão da vila Kroeff. Foi um período conturbado, pois ele defendia a reciclagem da área e a sua reconversão numa central de reciclagem.

A idéia dividiu opiniões e levou a um racha mesmo entre os ecologistas do vale. No final se instalou a central da Roselândia. Mas ele nunca se conformou com o abandono do lixão da Kroeff. Invocava até razões de cunho pessoal nesta frustração, pois sua mãe, natural de Hamburgo Velho, era descendente da família Kroeff. Mas foi a oportunidade de trabalharmos juntos, pois neste tempo era funcionário da Prefeitura. Sempre que vinha a cidade acompanhar o projeto conversávamos. Num destes contatos é que se abriu a porta para minha ida à ECO 92. Lutz era ministro recém caído do Governo Collor e estava retomando os trabalhos no sul. Numa reunião com ele e o prefeito foi que recebi autorização para fazer a viajem a uma dos maiores eventos da cena mundial. Experiência que serviu para consolidar, definitivamente, minha vocação como militante ecologista. Na volta nos reencontramos num evento sobre agricultura ecológica. Ocasião em que tive o prazer de tê-lo como ouvinte de uma palestra minha. À noite me convidou para jantar a sós e, bem do jeitão de mestre irado dele, expôs todos os defeitos da minha palestra.

Fiquei meio abalado com a força do golpe que esfriou meu entusiasmo. Ele, de pronto, percebeu, e, meio se corrigindo, disse que apesar dos erros tinha falado com muita força e entrega. Depois disto puxou um papel e me mostrou como ele preparava suas palestras. Uma lição que jamais esquecerei. Um pouco depois veio de novo a Novo Hamburgo e fizemos uma rápida passagem pelo Parcão. Pediu para parar o carro e reconheceu, com alegria, os campos aonde brincava quando era criança e aluno interno do colégio São Jacó. Às vezes ai ali matar aulas e passear nas ravinas do Arroio Wiesenthal. Hoje protegido pelo Parque Henrique Roessler Algum tempo depois o Movimento Roessler fez uma visita ao Rincão Gaia. Ficamos 3 dias no local que ele escolheu para criar um redutos dedicado a comprovação prática de suas idéias. Além de muitos passeios e experiências tivemos o prazer de ouvi-lo por horas, enquanto degustava uma cervejinha Miller que levamos de presente, falar sobre a teoria de Gaia. Um momento que marcou forte uma nova geração de ecologistas da entidade.Alguns meses antes Lutz foi um das principais estrelas do Seminário Centenário Henrique Roessler, que organizamos junto com a Feevale.

Uma multidão ouviu falar sobre o mesmo tema que defendia de um modo apaixonado. Noitada que encerramos, lá em casa, regada a vinho e queijo da região de nascente do Sinos. Foi esta intimidade que abriu as portas do Rincão Gaia para podermos trabalhar na realização de cursos de paisagismo voltados a preservação ambiental, num terreno que era um exemplo vivo da tese do qual ele era um grande mestre. No final deste curso, me presenteou, depois de muito choro, com uma dickea de sua coleção. Planta que esta no meu jardim agora. Como ele me recomendou mil cuidados de plantios, resolvi mandar uma foto dela em seu novo lar. Mas escrevi o nome errado e ele, de pronto, me enviou a foto de volta com o nome corrigido. Coisa de um mestre irado que também me deu a honra de assinar o prefácio do livro “Signos de Renovação”.Também tivemos ocasiões festivas, como seu aniversário de 71 anos em que meu afilhado Felipe teve a honra de tirar uma foto com o amigo famoso do dindo. Quando o Movimento Roessler completou 20 anos Lutz veio na festa, junto com Magda Renner. Ocasião em que declarou a todos que tinha vindo em honra do velho Henrique em quem reconhecia como uma grande influência na sua trajetória pessoal. Fato nunca antes declarado em público. Nossos últimos contatos foram no final de 2001 quando cruzamos no aeroporto. Ele seguia para receber mais uma homenagem na Alemanha. Nós estávamos indo para Brasília expor o segundo módulo do Pró Guaíba ao BID.Apesar da tosse ainda teve forças para tirar da bolsa um material do Programa e reclamar da “feiúra estética” das estações de tratamento de esgotos de uma foto do material. Só se acalmou quando dissemos que as próximas seriam melhores e estavam mos indo negociar um plano de ações com visão ecológica.

Ainda teve forças para falar no Fórum Rio mais dez nas vésperas do Fórum social Mundial de 2002. O tema foi o da ética ecológica. Tese mais cara a um sujeito que combinava a inteligência do cientista com o fervor de uma devoção à contemplação da beleza do universo. Combinação que levou a uma cruzada frenética, deste a fundação da Agapan, em prol da defesa da perpetuação desta harmonia. Trabalho na qual revolucionou não só o Rio Grande, mas o país e se transformou num dos mais respeitados ecologistas do planeta.. Seu corpo agora volta à terra que ele tanto amou. Mas a obra fica impregnada em milhões de corações e mentes pelo mundo afora. Que me perdoem, os leitores, o tom pessoal deste relato. Mas foi a melhor forma que encontre ide prestar uma homenagem ao mestre e, ao mesmo tempo, promover uma catarse na emoção que senti com sua partida.

Fonte: Fundação Gaia

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