A Evolução do Conceito de Ecologia

Este texto é baseado no Artigo “A Evolução da Visão Ecológica”, disponível em ”A Reconciliação com a Floresta” de Arno Kayser (Porto Alegre, Mundo Jovem,2007)

Começo propondo um Exercício: O que é fundamental na tua vida?
As meu ver a resposta inclui Ar/Água/Comida/Moradia/Vida Social/Trabalho/Vida Cultural/Vida Afetiva/Transcendência
É dentro deste conceito procuramos entender a Evolução do Conceito de Ecologia.
A Ecologia é hoje um tema popular: Ele perpassa vários de debates presentes no nosso Mundo. Ele é um Fenômeno Cultural que está na vanguarda da Crítica ao Modelo de Sociedade. Funciona com Tema Transversal que aparece em várias questões: que vão da Tecnologia à Educação; da Agricultura ao Planejamento Territorial; da Saúde/Saneamento/Alimentação; nos debates sobre o clima; nos debates sobre Biodiversidade; na crítica à Sociedade de Consumo e no esbanjamento de Recursos Naturais; na luta contra os resíduos e poluição; na destruição de modos culturais tradicionais; na busca de uma nova Ética das Relações Humanas; no debate do direito à vida; na busca de uma nova espiritualidade; na busca de uma relação fraterna entre os seres; e na reconexão com o caráter sagrado da natureza;
A Ecologia é uma ciência que surge em 1857, proposta por Ernest Haeckel. Surgiu na era da afirmação das ciências naturais. Seu enunciado básico é o estudo das relações dos seres vivos com o meio ambiente. As relações entre os ciclos biogeoquímicos e os seres vivos. Algo restrito a um grupo bem pequeno de interessados a princípio.
A questão é por que será que uma ciência tão jovem tenha tomado tal dimensão em tão pouco tempo? A resposta passa pela evolução pós Revolução Industrial, os efeitos da explosão demográfica, o avanço da compreensão científica do mundo, a evolução dos meios de comunicação de massa e os avanços na participação cidadã.
A evolução tecnológica pós sociedade industrial aumentou o poder do ser humano de intervir nos ciclos naturais, aumentou a produção de dejetos e consumo de matérias primas e iniciou a introdução de substâncias sintéticas no meio ambiente.
No século 19 houve uma reação liderada por escritores românticos com Goethe e Thoureau, pelos iluministas, os socialistas utópicos e a nobreza que perdia poder.
O relato dos viajantes europeus em contato com culturas indígenas influenciou este debate e divulgou visões diferentes do papel do ser humano no Planeta como a Carta do Cacique Seatle ao presidente americano.
Houve uma valorização da vida no campo em oposição à vida poluída das cidades fabris.
Surgem os clubes de caminhantes, os observadores de animais silvestres, a defesa das reservas de caça da nobreza. Esta reação lança as bases do Conservacionismo. Seu pressuposto principal é que o ser humano precisa ser afastado da natureza para que ela seja protegida. A primeira medida prática foi o surgimento dos parques naturais.
No século vinte está reação se intensifica por conta de novos fatos. Surgem os venenos químicos, a indústria do petróleo e a tecnologia nuclear. É publicado o livro “Antes que a Natureza morra” que junto com a revista da Nacional Geográfica começa a fazer a defesa dos animais ameaçados de extinção.
Entre os sinais de alerta se descobre que DDT se acumula na gordura dos ursos polares. Animais que vivem muito longe das lavouras. O livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson denuncia isto e o impacto dos venenos agrícolas lançando a ideia de uma estação sem os ruídos dos animais despertando depois do longo inverno.
As bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki, a guerra fria e as guerras da Coréia e do Vietnan fazem surgir o Pacifismo. Movimento liderando por personalidades internacionais e pelos hippies pedindo o fim das guerras e o investimento na paz.
A ONU publica “Os Limites do Crescimento” que apontam os riscos da superpopulação e do esgotamento de recursos naturais.
Os meios de comunicação de massa levam estes fatos para o mundo todo mostrando fotos da Terra feitas do Espaço, a poluição e a destruição da natureza.
Neste contexto surge o Ecologismo e as entidades ecologistas defendendo o “Pensar Global com agir local”. Entre elas a UPN de Roessler, Agapan de Lutzenberger e o Instituto Cousteau.
Em consequência se realiza a conferência da ONU em 72 em Estocolmo. Ela cria o dia mundial do meio ambiente e sistematiza a ideia de que temos uma série de problemas ambientais locais a serem enfrentados e aponta o compromisso dos governos com a proteção ambiental. Trabalhos sintetizados na obra- “Uma Terra Somente” René Dubos. A humanidade é vista como uma tripulação de astronautas numa grande espaçonave chamada Terra.
Com isto surge o Ambientalismo. O tema ambiental passa a ser parte da agenda dos governos com a criação de Órgãos Públicos de Meio Ambiente e a Legislação Ambiental. No Brasil o destaque é o Capítulo do Meio Ambiente da nossa Constituição.
Mas os problemas ambientais atingem uma escala global. O buraco da camada de Ozônio, a perda da Biodiversidade, as mudanças climáticas e ameaça da extinção das baleias são exemplos.
Surge a Teoria de Gaia que afirma que Terra um grande ser vivo.
A ONU chama a Conferência do Rio de Janeiro em 92 embasado no relatório da Comissão Brundland “Nosso Futuro Comum”. Documento que gera vários acordos globais. Entre eles o Tratado de Kyoto, a Agenda 21, a Convenção da Biodiversidade e a proibição da caça de baleias. O fato de não ter apoiado estes acordo leva a queda do governo Bush pai derrotado nas eleições de Novembro daquele ano.
Isto tudo faz com que haja um contra ataque. A Organização Mundial do Comércio lidera reação neoliberal propondo capitalismo verde. Afirma que os mecanismos de mercado vão salvar o meio ambiente.
Além disto começa um jogo mais sujo com o corte de espaço na grande mídia onde as grandes empresas anunciam. Em seu lugar aparecem os anúncios de Marketing Verde.
Com a aprovação das Leis de Patente de Organismos Geneticamente modificados se abre uma nova era de patenteamento da vida para a inserção de novos produtos no modelo de Consumo que agora é Mundial.
A luta antiterror e contra o narcotráfico reforça o mercado da indústria bélica. Começa uma onda de criminalização de movimentos populares que são equiparados aos terroristas de certo modo.
A crise econômica global do fim do milênio enfraquece movimento ecológico de base local. No Brasil muitos governos de esquerda captam militantes do movimento enquanto na cena global o Governo dos EUA segue incentivando o uso petróleo e atrasando as alternativas energéticas sustentáveis.
Neste contexto surgem e se fortalecem as coalizões ecologistas globais. Destaque para os Amigos da Terra e o Greenpeace.
Ao mesmo tempo o tema da Ecologia atrai movimentos sociais como o MST a CUT e os grupos Feministas. É superada a ideia de que a luta ambiental é uma causa burguesa.
Com isto surge o Socioambientalismo como uma crítica de esquerda ao capitalismo verde. O Fórum Global Mundial coloca o socioambientalismo como um dos pilares da luta popular trazendo o tema do Desenvolvimento Sustentável à baila através dos escritos dos Teólogos Boff e Frei Betto. Entre eles a Carta da Terra e os trabalhos de Ecologia Profunda. Surgem eventos populares como a Romaria da Terra e das Águas. Paralelo a isto tudo muitas ações de educação ambiental se espalha em todas as escolas.
O mote é construir um novo mundo possível. Um mundo ecologicamente sustentável, socialmente justo, economicamente viável e culturalmente aceito.
A Rio mais Vinte mostrou que o Capitalismo Verde e o socioambientalismo disputam poder no mundo atual e se rejeitam mutuamente como solução para os problemas ambientais que tem aumentado muito.
É preciso trabalhar dentro dos espaços criados por esta evolução histórica.
Como palco temos dois grandes sistemas de Gestão Ambiental na esfera pública:
A gestão das águas calcada no uso sustentável que tem base no Ambientalismo e na Economia Ecológica. O outro é o sistema de proteção ambiental baseado no controle da poluição e proteção da biodiversidade que surge do Conservacionismo e do Ecologismo. São sistemas ainda não completamente harmonizados entre si.
Na esfera privada também há dois grandes sistemas de Gestão Ambiental.
O Sistema de Certificação com Base na Visão Neoliberal de Capitalismo verde e Desenvolvimento Sustentável. Seus instrumentos são as ISOs, os Certificados de Origem dos Produtos da Agricultura Orgânica e de Produtos Ecológicos e livres de OGMs
Em contraponto há os sistemas de Certificação com Base na visão Socioambiental. Este valoriza produtos de comunidades tradicionais e populares e base ecológica, livres de OGMs como os Produtos agroecológicos e os produtos de comércio justo e solidário cuja certificação é solidária.
O desafio é se inserir neste universo de forma consciente. Como fundamentos dessa inserção temos que trabalhar no que se gosta. É importante estudar muito os fundamentos científicos, valorizar a intervenção em espaços de gestão democrática como conselhos de meios ambiente e comitês de bacia, Também temos de ter uma atuação ética comprometida com a preservação das bases da vida no planeta.
É preciso usar o saber técnico para fazer um mundo melhor para todos os seres. Criar mais e repetir menos. Devemos trabalhar com visão integrada à comunidade local, as bases ecológicas e ao mundo. E produzir produtos e serviços capazes de prover as necessidades fundamentais para todos como metas da Gestão Ambiental Pública Privada.
Entre elas as que garantam Ar, Água, Comida, Moradia, Vida Social, Trabalho, Vida Cultural, Vida Afetiva e Transcendência.

Arno Kayser
Agrônomo, Ecologista e escritor.

Para ir mais fundo procure www.arnokayser.wordpress.com ou os livros “A reconciliação com a floresta” e “Ecologia em tempos tão confusos”

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